quinta-feira, 21 de abril de 2016

Espetáculo de cínicos

Estou envergonhada por ter visto no domingo, dia 17 de abril,  aqueles canastrões de terno e gravata proferindo as mais altas baboseiras na frente do cínico que presidia a sessão. Foi a maior humilhação que essa sociedade recebeu. E o pior é que as pessoas mais bem alimentadas e protegidas por esta desigual sociedade acharam normal porque estavam encenando a tirada do "bode expiatório" da vez do poder: O PT, os "vermelhos...
Foi pior do que o 7 a 0 para mim. Futebol não tem efeitos concretos. Só simbólicos. Mas a política feita naquela casa liderada pelo Cunha tem.
Dizem que cada país merece a classe dirigente que tem, mas aqui como o poder do dinheiro manda muito e as instituições com o STF são lerdas ou coniventes, só posso é continuar acreditando que não somos esse país de boçais que eu vi espelhado ontem na TV. E um recado aos "liberalóides" de plantão: faz de conta que foi a meritocracia que colocou aqueles deputados ridículos lá e não a torpe corrupção que irriga de dinheiro o PP, o PMDB e CIA desde que eles se entendem por partido. Lembrem-se que o primeiro diretor a fazer "delação premiada", o Costa, era indicado do PP. Muito triste ver esse espetáculo de cinismo ao vivo e a cores e com efeitos tão profundos para a nossa nação.

sábado, 5 de março de 2016

13 de março?


Há linhas que, quando ultrapassadas, a gente se toca: NO PASSARAN!
Como é que o grupo que quer tirar a Dilma do poder resolveu  convocar uma manifestação para o dia 13 de março? Como assim, cara pálida? 13 de março é o dia do célebre comício da Central do Brasil, quando o presidente Jango anunciou a reforma agrária e uma taxação da remessa de lucros das multinacionais para o exterior. O Brasil teria sido muito diferente se tivessem deixado o Jango fazer sua reforma agrária bastante tímida, por sinal... Mas, ao invés disso, golpearam o país acenando com um tal perigo sindical ou comunista, longe dos idéias dos trabalhistas.
Sempre acho que o fato de não ter tido resistência ao Golpe de 64, emasculou o Brasil e os brasileiros. O Jango avaliou que não dava, sei lá. 
Mas o fato é que a repressão baixou feia, matou, detonou e as melhores cabeças que governavam ou emitiam opiniões sobre o Brasil foram exiladas ou deposta
s: Darcy Ribeiro, Santiago Dantas, Celso Furtado, Josué de Castro,Paulo Freire, Anísio Teixeira.. Os maiores e os melhores foram apeados do poder sem qualquer resistência. O país ficou à mercê dos gorilas ignorantes da vez e somos desde então os piores em desigualdade social do mundo. 
E, a ignorância grassa, pois tem gente que pede os milicos de volta! Como se as empreiteiras hoje no banco dos réus não tivessem começado sua carreira meteórica de favores e propinas justamente na ditadura militar! Sim, sem democracia para denunciá-los!
A Dilma é fraca, politicamente incompetente. Mas foi eleita. Ponto final. O Lula pode até ter recebido favores das empreiteiras, mas dividiu um pouco melhor o bolo... bem pouco por sinal, mas dividiu.
E o povo sabe. Sente na pele o que é isso. Comer melhor faz muita, muita diferença.
O dia 13 de março tem que ser um dia de combate contra esses ignorantes que ousam tripudiar com a nossa memória histórica.
Quando o Serra que quer entregar o pré-sal para a Chevron sofrer uma investigação profunda como a que ronda o Lula, aí eu vou me sentir mais tranquila. O pré-sal só pode ser um negócio muito bom para ter tanto urubu voando sobre a carniça da Petrobrás.E um vendilhão como o Serra segue impune, sem qualquer mácula sobre seu passado esquisito na era das privatizações tucanas...Todos eles ficaram muito ricos, por sinal..
O  Lula ao que parece, também ficou muito bem de vida depois da presidência. E os filhos dele também.
Mas, não era para tê-lo arrastado de casa às 5 da manhã por isso! Humilhar o Lula? NÃO!
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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pedro II e a Educação brasileira


Dia 19 de fevereiro, levei Agatha, minha filha para a inauguração de uma unidade do Pedro II, escola pública de excelência do Rio de Janeiro, onde, por obra da pura sorte, ela vai estudar a partir deste ano.
Foi sorteada. Ela e mais um total de no máximo umas 500 crianças.
Fiquei emocionada no saguão simples. Sem regalias. E encantada com as salas de atividades que ela vai ter oportunidade de desfrutar em seu aprendizado: sala de música, sala de literatura, sala de computadores, sala de ciências.
Ela amava o CEAT, a escola onde estava. E creio só  se convenceu que era uma boa ir para o Pedro II por conta dos esfuziantes parabéns que recebemos. Entendeu que devia ser algo muito bom.
Somos umas das poucas famílias brasileiras a desfrutar do benefício de ter uma escola pública, de qualidade, com professores dedicados, valorizados e uma estrutura sóbria,  modesta, mas com tudo que uma criança precisa para gostar de aprender.
Queria que houvesse Pedros II para TODAS as crianças brasileiras.
Agradeço muito a oportunidade que minha filha recebeu.
Mas a verdade é que a própria existência de uma instituição como o Pedro II demonstra que sabemos como se faz uma educação pública de qualidade. Ou seja, não existe mágica e fórmulas milagrosas. É desse jeito:  corpo docente com bom plano de carreira e valorizado, estrutura, etc. Não sei como o Pedro II conseguiu se manter e o “Julinho” em Porto Alegre, não.  O primeiro é federal. O segundo estadual. Mas e aí? Aplicando a racionalidade funcional de um consultor de gestão: basta replicar os procedimentos. E, óbvio: os recursos.
Sei que lá dentro as lutas existem para garantir que ele siga assim. E melhore. E talvez é isso que tenha faltado nas demais escolas públicas: não deixar a peteca cair. Os pais de classe média foram tirando  seus filhos quando as escolas foram piorando. E o problema, não sendo mais deles, foi seguindo ladeira abaixo. 
Sempre achei que se tivesse filhos tentaria colocá-los em escola pública para assumir também o compromisso de resgatá-la. Mas trabalho muito. Avaliei, quando a Agatha nasceu, que não teria tempo para isso. E é mais cômodo mesmo a gente encaminhar nossos filhos para as escolas particulares.
São várias as lutas que a gente deve travar cotidianamente. E esta eu não ia conseguir dar conta por conta do tempo e dedicação que seria necessário e por envolver ela.
Sim, porque eu tenho a possibilidade da escolha. Mas milhões não têm.
Por outro lado, com  a quantidade de impostos que a classe média paga neste país, como ela tolera ter perdido este serviço essencial, topando pagar fortunas para garantir um bom  futuro educacional  para seus filhos? Por que ela se retirou desta luta?
Sim, educação é um serviço essencial. E no estágio demográfico que está o país, não há nada mais importante para se investir. Nenhum PAC da vida se iguala à estratégia  embutida em um governo que prioriza a educação: investir nas pessoas e, sobretudo, nas crianças.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack e o ponto de vista da criança



Tenho que procurar ir pelo menos uma vez por semana em um templo humanista chamado cinema.  Nos últimos tempos, geralmente não consigo. Mas sei exatamente o tipo de filme que  gosto. E quando vejo um desses,  fico desgustando as experiências que ele me trouxe. Ettore Scola, um dos meus diretores preferidos, que foi-se há pouco daqui, definiu o cinema mais ou menos como  “aduas horas  nas quais na escuridão e no silêncio, anjos e demônios disputam a nossa alma”. Portanto, a frequentar cinema é sim como uma espécie de religião, visto que promove que a gente saia do nosso mundo pessoa “para ocupar-se com qualquer coisa maior”.  E nos bons filmes, há sempre uma injeção de humanismo e transcendência.
Isso porque os grandes filmes, como os  grandes romances, seu processos de aprendizagem que fazem a gente verificar a nossa subjetividade, vivendo aquelas emoções,  interpretadas por outros, que nos fazem sentir aquelas sensações de modo a pensar sobre elas.
Por esta razão, os bons filmes são os que tem pelo menos dois planos, senão três: o enredo, a forma como é contado, ou seja a narrativa, e as múltiplas leituras que ele suscita.  Cada um o assiste com seu repertório.  E com ele dialoga agonisticamente com o que está assistindo
O filme, “O Quarto de Jack” é uma grande obra neste sentido, ao contar uma história triste que se repete infelizmente desde o início dos tempos, tendo como vítimas garotas. Mas este lugar é percorrido sob o ponto de vista de um menino. Uma mãe se desvelando para criar um mundo em um minúsculo quarto, sob o ponto de vista de seu  filho.  
Cenas geniais, fotografia comprometida com a narrativa e grandes atores em cena. O mais puro cinema, abrindo boas  perguntas sobre essa fascinante aventura da maternidade sob o ponto de vista de uma criança.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O caos e a vulnerabilidade em Porto Alegre



Cheguei a Porto Alegre na manhã seguinte ao vendaval ou ciclone feito de raios que partiram grande parte da bela cobertura de árvores da cidade, na sexta à noite, dia 29 de janeiro de 2016.
Fora elas, retorcidas, partidas, no chão, foram mais ou menos cinco mortos pelo que ouvi. Pessoas hospitalizadas dependendo de respiradouros que falharam com a falta de luz. E um colombiano no trânsito.
Um colombiano perdido na minha cidade!
Vários bairros sem luz e água desde sexta-feira. Caos democraticamente espalhado por todas as classes sociais. E, cadê o Prefeito? Cadê alguma liderança que apareça centralizando as informações de algum modo em algum lugar? Dando pelo menos alguma aparência de coordenação das atividades? Pedindo verbas ao Governo Federal? Na verdade, se há um prefeito que não faz isso, para que prefeito? Sem acesso a luz, só o velho rádio como suporte.E sem rádio, nada. Uma cidade sem semáforos - que lá se chamam sinaleiras - funcionando nas suas principais vias.
Deu para ver a nossa vulnerabilidade e incapacidade de lidar com eventos climáticos que devem se tornar mais frequentes. Houve vários temporais o ano passado em Porto Alegre. Na verdade, sempre houve. No jornal diz que o Saint-Hilaire viu um do mesmo estilo. Mas então não tinha tanta gente, tanto fio elétrico.
Parece, segundo a atendente do aeroporto, que os americanos sabiam que ia acontecer o suposto ciclone na cidade. Contei isso ao taxista carioca que retrucou: pra que saber antes? Em suma, de que iria adiantar saber antes em um lugar completamente despreparado como estava Porto Alegre. Só ia causar pânico. E ninguém, como vemos agora, ia saber o que fazer mesmo. Pelo visto, o jeito é a gente se tranquilizar diante da nossa terrível vulnerabilidade.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Chico Buarque



Cada país tem seus ídolos. E eles representam esse papel para um determinado povo porque sintetizam em si algo que todos desta determinada sociedade valorizam. Ao começar o documentário “Chico Buarque: um artista brasileiro”, com o próprio cantando uma música com o ponto de vista de um negro escravo em vias de ser severamente castigado por supostamente ter visto a sinhá nua, Miguel Faria Jr sintetizou o que para os brasileiros medianamente informados Chico Buarque representa: um grande poeta bem humorado, músico, jogador de futebol, afeito à malandragem, que constantemente expressa algo que cala fundo em nós.
Mas estranhei que não falasse do engajamento dele com a luta pela reforma agrária. Que não é luta qualquer e na qual Chico, liderado por Sebastião Salgado e ombreando José Saramago, emprestou sua sensibilidade para dar visibilidade para a questão, então menos paralisada nacionalmente no ano de  1997.
Em tempos sombrios e ao mesmo tempo ridículos, é bom ver que a quinta essência do  brasileiro é inteligente, bem-humorada, crítica e malandra. Algo em mim  tem o Chico como representante, portanto algo temos em comum.   Temos alguma salvação.
Mas é esquisito um documentário desses  pular, nem sequer mencionar uma imagem daquele momento, dando a entender erroneamente que o Chico é um “liberal” como qualquer outro.  Desde o primeiro show “Canta Brasil”, em  1982, quando a luta pela reforma agrária, em plena ditadura militar, se expressava em Encruzilhada Natalino (RS), Chico era atento a ela.  Doou seu cachê para o acampamento.

Eu tenho uma lembrança engraçada desse show. Fui com minha mãe. Adentramos o gramado do Estádio Beira-Rio. Que emoção para uma menina colorada de 14 anos! E de repente, na hora que o Chico começou a cantar, minha mãe descolou um binóculo. E começou a gritar “Os holofotes! Ele tem holofotes azuis”. Fiquei perplexa. Nunca tinha visto minha mãe manifestar qualquer interesse por algum ídolo. E o choque dela com os “holofotes azuis” do Chico, me passando o binóculo para eu também olhar, me deixou cismada com aquele homem.  E me fez seguir a sua música. E com ela, eu cresci muito bem acompanhada de palavras, versos, músicas e emoções. Obrigada, Chico.

domingo, 20 de setembro de 2015

O fim da doação de empresas para campanhas eleitorais e as cicatrizes de 64



Em meio a essa deriva política pela qual navega o Brasil, houve luz no fim do túnel.  A decisão do STF de barrar doação de empresas para campanhas eleitorais é uma vitória que ainda parece em dúvida - a se levar em conta o que o Presidente da Câmara dos Deputados alardeia -  mas é a única grande mudança institucional de peso no país desde a década de 90, quando a reeleição foi instituída pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em meio a denúncias de compra de votos dos parlamentares dessa mesmíssima Câmara de Deputados.
Às vezes parece que o Brasil anda em círculos, mas o fato é que a crise política que hoje paralisa a economia reedita um problema com o qual o Brasil se debate desde os famosos Anos JK, quando as empreiteiras, por ocasião da construção de Brasília e do plano de metas aplicado sem reformas estruturais importantes como a agrária, começou um festival de corrupção que levou a eleição de Jânio Quadros. O grande mote do presidente  histriônico que logo renunciou ao poder  foi  justamente uma vassoura para varrer toda a sujeira das “tenebrosas situações” que se forjaram então entre o governo e as empreiteiras envolvidas em “grandes obras”.
Na época, quem ocupava a posição do PT, com seu suposto comunismo, era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) então em aliança com o PSD, partido de Juscelino Kubitschek. Os problemas criticados  à esquerda do PTB eram os mesmos: eleições visando obter empregos para sua base, falta de firmeza programática, corporativismo. Para a direita, Jango queria instalar uma “república sindical” no Brasil. E todos as lutas dos trabalhadores expressavam o perigo do comunismo.
A polarização pela qual hoje passa o Brasil tem certas tonalidades muito parecidas. E também como não poderia deixar de ser, beira a farsa.
O fato é que toda onda de crescimento  capitalista embute alguma dose de práticas ilícitas até porque muita gente passa a perna na tal da competição molhando a mão de agentes de diversos tipos, sobretudo do Estado. O capitalismo é um sistema econômico irrigado em corrupção. Só instituições democráticas fortes e com legitimidade, como um Poder Judiciário eficaz e independente, é que coíbe essas práticas na base da punição exemplar. Mas em um sistema oligárquico de representação como temos no Brasil,  onde temos um Congresso eleito pelo poder econômico, é praticamente impossível se ver imune dessas práticas.
Por isso, a decisão do STF é tão importante. E é ultrajante ver um presidente da Câmara indiciado criminalmente ter a pachorra de declarar publicamente que vai tentar reverter essa situação. O fato de ele ainda se sentir forte para mandar na Câmara é que é preocupante. Tem gente que imagina que todos  essas iniciativas dele visam garantir algum capital político para evitar a cadeia que lhe espera. Mas o fato é que o Governo Dilma é tão fraco que nem sequer consegue defender o que fez de bom, garantindo as mudanças institucionais exigidas que beneficiam a maioria, como o regime de partilha do Pré-Sal, agora também ameaçado por Cunha, depois de ter sido derrubado no Senado.
É espantoso ver como ainda se move com desenvoltura um presidente da Câmara que claramente feriu o regimento interno da Casa para promover um dos maiores retrocessos com relação aos direitos com a mudança da maioridade penal.
Nessas horas só tenho a lamentar o imobilismo político da população que devia estar ocupando o Congresso Nacional para constranger esses deputados eleitos pelo poder econômico a não ousar implementar essa mudanças lideradas por Cunha.   Se a Dilma vai ser “impichada” ou não, pouco importa. Incompetente para articulação política e fraca do jeito como está tende a se submeter a qualquer chantagem.  O que importa é afastar esse histérico deputado da liderança da Câmara e mostrar para os engravatados de lá quem manda efetivamente no Congresso. É só a vontade popular expressa em grandes manifestações lá mesmo em Brasília  que pode impedi-los. Isso  se não queremos ser golpeados pelo poder econômico  como em 1964, mas desta vez, obviamente como farsa, porque  fazendo de conta que estamos em uma democracia.