domingo, 8 de setembro de 2013

Cadê o Amarildo?

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/os-desaparecidos-do-rio-de-janeiro

Repúblico matéria que fiz há dois anos atrás com números assustadores dessa tragédia carioca demasiadamente cotidiana:

Os Desaparecidos do Rio de Janeiro

Debora lerrer 31 de agosto de 2011 às 15:50h A morte de Juan Moraes, aos 11 anos, durante uma operação policial na Favela Danon, em Nova Iguaçu, em junho, tornou-se um divisor de águas na política de segurança do Rio de Janeiro. Em pouco tempo entrou em duas estatísticas importantes: na de vítima de operação policial e na de desaparecidos que foram mortos.  Por um lado, a morte de Juan demonstrou as circunstâncias nada conformes dos “autos de resistências” registrados por alguns PMs. Mesmo uma perícia realizada oito dias depois revelou que, no local, só  havia balas das armas dos policiais. Com o escândalo, a Polícia Civil baixou uma portaria exigindo mais rigor nas investigações dos autos de resistência. Mas foi a ocultação do cadáver de Juan, que escancarou mais uma vez uma prática frequente no Estado do Rio de Janeiro: o desaparecimento de corpos, sinistra herança da ditadura militar.
Enquanto Sérgio Cabral, o governador do Rio de Janeiro, comemora a redução de 11,4 % de homicídios no primeiro semestre de 2011 em relação ao mesmo período de 2010, o número de desaparecidos continua com números expressivos e crescentes. Aumentou de 2.643, em 2010, para 2.879, em 2011, ou seja  9%.  E nessa conta não entram os cadáveres e ossadas encontrados no estado, número que foi 329 em 2010 e 299 em 2011, a maioria dos quais enterrados como indigentes, sem sequer um cruzamento com os registros de desaparecidos. É por conta desses números que Antonio Carlos Costa, presidente do Movimento Rio de Paz  afirma: “Enquanto não houver esclarecimento dos casos de pessoas desaparecidas, qualquer afirmação em termos absolutos sobre redução de homicídio no Rio de Janeiro é chute”.
Na cidade do Rio de Janeiro, uma média de 200 pessoas por mês tem seus sumiços registrados nas delegacias. Embora cerca de 70% dos desaparecidos reapareçam, já que na categoria entram os jovens que fogem de casa e os idosos que se perdem na rua, Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da UERJ, lembra também que muitos desaparecidos não são registrados. “A gente conhece muitos casos de favelas nas quais uma pessoa foi morta, o corpo não foi encontrado, mas a família não registra por medo da polícia, porque já sabe que as vítima morreu e não tem expectativa de encontrar a pessoa com vida.”
O lavrador Áureo Neves, de 66 anos, perdeu três de seus filhos entre 2005 e 2006. O mais velho, Eduardo, de 33 anos, trabalhava na Comlurb, e o mais novo, Áureo Filho, com 16 anos, o ajudava  a criar porcos em seu sítio na estrada Grajaú-Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ambos morreram  em supostos confrontos com a polícia.  Do primeiro, Áureo, diz que se envolveu com drogas e que os policiais “cismaram que ele era o dono da boca”. Segundo testemunhas, foi executado depois de ferido na perna no dia 15 de setembro de 2005. Do segundo, afirma, “o envolvimento dele era com namoradinha do morro”. Diz que sua morte foi pura covardia. Voluntário na Brigada de Paraquedistas, em 1964,  viu que o tiro na cabeça do filho foi dado de cima para baixo e pelas costas. Desses, pelo menos, teve o corpo. Já de Leandro, nem isso.
Este filho, segundo Áureo, realmente lhe deu “dor de cabeça”. Cumpria condicional por roubo. No dia 28 de novembro de 2006, a mulher dele, Danielle Fontes, saiu da creche onde trabalhava, em Lins de Vasconcelos, após um telefonema do marido. Leandro tinha sido ferido por policiais em Quintino. Nunca mais ambos foram vistos. Atrás do filho e da nora, chegou a brigar na delegacia, pois lhe repetiam que seu filho era bandido. “Pobre não consegue nada. É um aborto da natureza. Não pode constituir advogado, não pode nem estar ali direto na delegacia.”  Tanto Áureo como a filha do casal, então com 4 anos, tiraram sangue para checar o DNA com corpos encontrados, mas nas duas únicas checagens deu negativo.
A categoria “desaparecido” entrou no vocabulário da violência no Brasil através dos presos políticos, a maioria dos quais, filhos de famílias da classe média, se organizam em grupos como o “Tortura Nunca Mais”e mantêm a boca no trombone desde a redemocratização do país. São ao todo 379 desaparecidos políticos no Brasil, presumidamente mortos pela repressão.
O Instituto de Segurança Pública realizou uma pesquisa sobre desaparecidos pós-ditadura em cima das ocorrências registradas do ano de 2007. De acordo com os dados coletados com uma amostra contatada por telefone, concluiu-se que cerca de 71,3% dos desaparecidos haviam reaparecido vivos, 14,7% não reapareceram; 6,8% reapareceram mortos, 4,4 % não obteve informação; e 2,9% tiveram seu registro de desaparecimento não confirmado pela família.  Fazendo uma estimativa com o índice – considerado subestimado -  de 6,8% de desaparecidos comprovadamente assassinados em relação ao universo dos casos registrados de 2000 a junho de 2011,  que é a cifra de 54.479, daria 3.704 casos,  praticamente dez vezes a mais de vítimas do que no tempo da ditadura.
Em zonas como a Baixada Fluminense, a ida a uma festa pode significar  risco para jovens como Fábio Eduardo Santos de Souza, então com 20 anos. No dia 9 de junho de 2003, ele e Rodriguo Aubílio,  de 19 anos, foram vistos pela última vez depois de deixarem uma amiga em casa, após uma festa junina. Segundo sua mãe, Izildete Santos da Silva, de 60 anos,  testemunhas viram ambos levando uma “dura” de policiais e sendo colocados no camburão. Em busca por Fábio desde esse dia, Izildete chegou a escutar na delegacia para  “não se preocupar” que ele devia ter ido “trabalhar para a Petrobras”.  Três meses depois, outro filho, Wallace, então com 16 anos, foi pego durante a inauguração de uma discoteca. Dessa vez, no meio da madrugada, vieram lhe avisar e ela saiu correndo atrás de seu paradeiro. Este, conta ela, foi despido, estava de joelhos em um terreno baldio, quando seus algozes  mandaram-no correr.  Foi solto, relata ela,  porque um “bêbado” notório na região testemunhava a  cena. Este levou Walace para casa, deu-lhe uma bermuda, mandou-o embora dali e depois sumiu da região. A peregrinação de dona Izildete pelo filho lhe acarretou ameaças à sua vida e à de seu filho “especial”, que depois do sumiço do irmão “Iba”, que cuidava dele, nunca mais voltou a andar e a falar.
O pesquisador Fábio Araújo, que faz doutorado na UFRJ em cima desse tema, aponta que o desaparecimento de corpos de pessoas assassinadas é uma prática comum “no repertório da violência urbana” do Rio de Janeiro. Esses casos não são geralmente investigados porque “se não há corpo, não há crime”, como dizem delegados e policiais. Além disso, segundo ele, a maior parte dessas vítimas são pobres,  moram em territórios dominados pelo tráfico ou pela milícia e se sentem intimidados na delegacia.  Agora, dona Izildete, que conhece pelo menos um dos policiais que abordaram o filho, luta para desarquivar o caso, encerrado por falta de provas em 2007.
Morte sem fim
Enquanto algumas mães levam suas denúncias adiante apesar das ameaças, algumas famílias ainda temem pela integridade de seus membros quando seus casos são  divulgados. Não é um medo vão. Basta lembrar que Edméia da Silva Euzébio, uma das famosas “Mães de Acari”, foi assassinada em  1993, quando fazia uma investigação paralela da morte do filho, Luiz Henrique Euzébio, de 17 anos.
Esse é o caso de Jaqueline,[1] cujo filho, Mateus, sumiu em Ramos, Zona Norte do Rio, no dia 9 de dezembro de 2006. Foi visto pela última vez na entrada da vila onde ficava a quitinete do amigo, Anderson.  Mateus era vistoriador de contêineres no porto. Tinha 23 anos, era casado e tinha um filho de  4 anos.  Naquele dia, Jaqueline tinha  falado várias vezes com o filho ao telefone. Ambos estavam trabalhando e combinaram ir ao shopping fazer “umas comprinhas de fim de ano”. No final do dia, depois de um desencontro entre os dois, Jaqueline, cansada, resolveu ir para a casa sem a esticada no shopping. Em seu último contato com o filho, ele estava na casa da avó.
No domingo, atrás de seu paradeiro, soube que “teve um problema lá”, na casa de Anderson. A quitinete, que até o dia anterior era mobiliada, estava vazia e com o chão lavado. Encontrou uma amiga deles ferida e com medo. Ouviu que “uns encapuzados”  pegaram Mateus e o amigo e os torturaram. Concluiu que foram mortos  por milicianos que aterrissaram em Ramos, 15 dias antes.
A mãe buscou notícias do filho em todos os hospitais, nos batalhões, na delegacia por semanas. “Não tem um dia em que eu não chore por ele”, diz ela. Quase dois meses depois, no dia 23 de janeiro, apareceu um corpo de um rapaz branco no Piscinão de Ramos. Ela só pôde reconhecê-lo por fotografia e no computador. O marido conseguiu ver a marca da bermuda do corpo, justamente a que Mateus gostava de vestir.  Quando levou a cópia de  arcada dentária do filho, então perfeita,  para fazer a comparação, a perita descartou de imediato, dizendo que  faltava um dente da frente na arcada do corpo. “É estranho jovem hoje em dia sem o dente da frente”, desconfiou ela. Sentia que podia ser o filho, queria um exame de DNA  ou pelo menos o acesso à sua arcada dentária,  mas não conseguiu impedir que fosse enterrado como indigente. Trâmites burocráticos difíceis de cumprir em 72 horas, para quem não tem dinheiro para pagar um bom advogado. Mais tarde, no mês de maio, conseguiram, através da defensoria pública, um levantamento de todos os corpos de indigentes enterrados  naquele período. Jaqueline tinha o Boletim de Ocorrência do encontro do corpo que julgava ser de seu filho, com o registro de 021-0558/2007. Ao ser transferido para o IML, o corpo passou a ser identificado como corpo da “guia 23”, da 21 DP. No levantamento, o “homem guia 23/21 DP”   tinha falecido em 7 de fevereiro.
Além de ser uma morte sem fim, já que não há corpo, sepultura e um momento específico para o luto,  um desaparecido que nunca vai voltar, como Mateus,  gera uma série de desgastes civis para suas famílias. Sem atestado de óbito,  foi demitido por justa causa, sem direito à indenização. Seus dependentes ficaram anos sem direito à pensão nem ao seguro de vida.  O carro, com mais da metade das prestações pagas – cuja propriedade seria de Mateus em caso de morte – ficou perdido.
O deputado estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Marcelo Freixo, acredita que o número dos desaparecidos no Rio de Janeiro tem aumentado nos últimos anos em razão do advento das milícias.  Os números do Instituto de Segurança Pública corroboram essa tese. Há um crescimento expressivo do número de desaparecimentos nas Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro, onde há notória presença de milícias,  se comparados os dados entre 2006 e 2010. Na Zona Norte, o número aumentou 16%, saindo de 843, em 2006, para 979, em 2010.  Já na Zona Oeste o salto é ainda mais expressivo: foram 638 desaparecidos em 2006 e 1.038 em 2010, ou seja um aumento de 62,5 %.
Maurício Campos, do Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, explica que entre 2006 e 2008 houve a implantação das milícias  nessas regiões e a prática de extermínio é geralmente usada como “moeda de troca dos grupos mafiosos na hora de se impor territorialmente”.  Embora o desaparecimento de corpos  possa ser vinculado a três atores: o tráfico, a polícia e a milícia, para Campos, é difícil separar as duas últimas categorias, pois geralmente miliciano é o policial sem farda, em seu bico nas  horas de folga. Essa dupla jornada tem sua origem na ditadura militar, nos grupos de extermínio pára-oficias, como o Esquadrão da Morte, que faziam o trabalho sujo e iam embora. “Agora a novidade é a presença territorial constante das milícias.” Para ele, a diminuição dos “autos de resistência”,  que caiu 25% de janeiro a junho de 2011, se comparado a 2010,  pode encobrir esses crimes, pois a política de extermínio continua. “Estes policiais deixam de registrar autos de resistência fardados e vão praticar o desaparecimento sem farda, sequestrando e sumindo com os corpos.”
Para Ignácio Cano, é necessário ter mais evidências  para se fazer uma conclusão nesse sentido. Concorda que quando a milícia entra em um território há um maior índice de assassinatos, mas acha que não dá para atribuir às milícias o aumento recente do número de desaparecidos. “Eles não precisam matar tanto depois de controlar o território. Teríamos que encontrar uma explicação de porque a milícia agora está sumindo com os corpos.” Cano inclusive tende a acreditar que a milícia mata menos do que o tráfico  porque não precisa estar em disputa constante de território e não troca tiro com a polícia.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre as manifestações

É  fato de uma nova geração estar indo para as ruas. Eu já tinha sentido isso no ano passado durante a greve das universidades. Uma insatisfação com os rumos partilhada por muita gente, que não vê essa vontade coletiva expressa e respeitada. E o transporte público no Brasil é um escândalo. Caríssimo. Péssimo. Se há algo que precisa ser subsidiado é o transporte público. Economizaria espaço, tempo e saúde das populações da cidade.
O David Harvey, o geógrafo marxista britânico defende que as lutas que estão se dando nas cidades contra o avanço do capital é onde se pode localizar o tal sujeito histórico que em outras épocas levava o nome de "proletário". Aqui, também acho que enfim está saindo para as ruas uma nova geração, que processa essas contradições que a gente assiste diariamente neste país e que resolveu se expressar. Os brasileiros são rápidos para aprender e inovar politicamente. Nosso problema sempre foram os "donos do poder" que possuem tentáculos impressionantes e uma ganância sem limites. Copa, Olimpíadas e etc. estão sendo perfeitos para isso. E as pessoas estão indignadas. O bom é que essa geração não tem as conexões da minha, que foi formada politicamente no fim da ditadura e considerava a estrela do PT a salvação da lavoura nacional. Infelizmente, como se sabe, eles passaram a servir muito mais aos ruralistas e mantiveram quase tudo como dantes, com um avancinho aqui, outro acolá. Mas que já inspira muito a sanha desvairada da nossa direita histórica, que não ousa nunca dizer o seu nome para nos deixar ainda mais confusos. E para completar, as cidades estão cheia de carros, o transporte público no país é caríssimo comparado ao de qualquer país latino-americano. E aqui no Rio, corre-se risco de vida diário ao se andar de ônibus. Todos sabem que o serviço é controlado por uma máfia regularizada, os serviços privatizados como barcas, metrô e trens oferecem torturas diárias a seus usuários que pagam bem caro por isso e... bom, um dia, felizmente, a panela de pressão estoura. Vamos ver onde vamos parar. Nessas enxurradas, muitos "castelos" sólidos devem se desmanchar pelos ares....A primavera árabe enfim chega às nossas praças e ruas. Vamos ter que cuidar para que ela não escorregue das nossas mãos e se torne mais um embuste a nos enganar, tão desejosos somos de alguma redenção - que não seja apenas a outorgada por dribles futebolísticos da Seleção Canarinho.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A louca barrageira

Hoje vi que a Dilma diz que ainda há espaço para hidrelétricas na Amazônia. Com o tanto de sol que tem o Brasil, essa legítima "louca barrageira" deveria estar preocupada em desenvolver tecnologia para aproveitá-lo do que em enriquecer a plutocracia brasileira das empreiteiras.
Mas não é o caso dela nem da "companheira" Glesi Hoffmann.
O horrível é que elas expressam a ignorância crônica das elites brasileiras sobre o que é "desenvolvimento", esse que nós copiamos do "american way of life".  Alguns enriquecem bem. Uma camada da classe média também, mas a maioria se dana mesmo. E danam-se os caipiras, caboclos, caiçaras e matutos de todo esse país. Danam-se os indígenas, danam-se os quilombolas. Assim enriquecemos bastante alguns lugares desse mundo e do Brasil. O resto fica com as migalhas e, pior, perde-se de si. Perde a pátria.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Brasil e o seu sistema oligárquico de representação



Nas escolas brasileiras, quando se ensina o que quer dizer oligarquia, devíamos ensinar que vivemos em uma “democracia baseada em um sistema oligárquico de representação”.  
Não sou eu que cunhei essa expressão. Foi um cientista político, que eu não me lembro o nome, citado pelo Miguel Carter, outro  pesquisador do tema formado na Columbia University, EUA, em seu magnífico livro organizado sobre Movimento Sem Terra do Brasil. 
Portanto, nosso problema não é Sarney, Renan Calheiros. É o Senado todo, cabide de emprego almejado por todos os ex-governadores e candidatos a governadores e presidentes do país. O Senado é totalmente desnecessário. Surgiu não sei bem por que, baseado em algo romano, mas no caso brasileiro, apenas 15% dos eleitores elegem 51% dos senadores. Alguns diriam que esse desequilíbrio de representação serve para manter a nossa unidade nacional, o pacto federativo. O argumento é plausível para outros tempos, mas agora não me parece que andemos com risco de desfragmentar essa unidade, portanto, creio que o Senado atualmente só serve para fortalecer os interesses dessa oligarquia que manda no país. Se é o caso de garantir um emprego aos ex-governadores- porque me parece que é mais disso que se trata - que se crie uma poupança vitalícia para o sujeito. Assim, não continuaríamos a ver esses lamentáveis episódios de venaliadades de diversos graus e escalões na nossa frente. Sairia mais barato para o erário público, até porque os cargos de servidores existentes no Senado são de fato uns dos mais bem pagos de Brasília.  A Câmara dos Deputados também tem uma representação desproporconal, o que favorece que exista uma excrescência chamada Bancada Ruralista que representa, de fato umas cerca de 200 mil famílias. E em nome dos interesses dessa enorme minoria, detona com o Código Florestal e, fortalecida depois dessa vitória, quer mexer em outros pilares da nossa Constituição para atender seus mais diretos interesses.  Vamos deixar que a “ordem fazendeira” domine esta nação?

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Província extremista

Porto Alegre é uma província extremista. Muito calor no verão. Muito frio no inverno. Extremos climáticos.  E gente vestida de vermelho ou azul. Quase como uma farda. Ou vermelho, ou azul.
Capital de  um extremo geográfico do Brasil. Hoje a vejo demolindo-se. Era arquitetonicamente bela. Hoje está à venda. Não sei quantos prédios novos estão programados para sair nesta nova arquitetura esquisita desses tempos de templos de consumo. Só sei que se vão minhas referências da cidade. Foram indo. Algumas aos poucos. Outras de uma hora para outra. Em mim, esse processo começou com o fim dos cinemas. O fim do ABC e seu tapete vermelho incrivelmente fofo recebendo os convivas das  sessões da meia-noite. Muitas delas, dormidas. Foi-se o Bar João e suas cachaças incríveis, o Baltimore e o cinema-escola Bristol.
Ficou a Casa de Cultura Mario Quintana. Mas até esteve  fadada a ir-se embora, não fosse o Mario Quintana. Também quase se foi o Mercado Público. Essas permanencias foram lutadas. E ficaram como símbolos. Mas a nova onda especulativa chegou e está varrendo a cidade novamente. Infelizmente, desta vez com péssimo gosto.

sábado, 17 de novembro de 2012

Todo o dia o sol levanta...

Boa música de ninar, que conheci do  Caetano:
Todo o dia o sol levanta
E a gente canta o sol de todo o dia
Fim da tarde
A terra cora
E a gente chora
Por que finda a tarde
Toda noite
A lua avança
E a gente dança
Venerando a noite.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

As loucas barrageiras

Queria ter vaiado a ministra Isabela Teixeira no último sábado, no início da Cúpula dos Povos da Rio+20,. Ela estava no fim da manhã na Arena Socioambiental, impune. Eu, sinceramente, não gosto de fazer isso sozinha. E estava com minha filha pequena. Tem que se pensar nas consequências dessas atitudes, estando-se com uma criança. Mas, realmente, lamentei. Até  sugeri para o pessoal do Greenpeace. Talvez tenha sugerido mal, sei lá. Em suma, ela passou impune pela Cúpula dos Povos da Rio+20. Mas ontem, dia 20, durante a passeata, me certifiquei da importância de o PT pelo menos não ter perdido o hábito de financiar reuniões de base. A Cúpula me lembra muito os Fóruns Sociais Mundiais e não devemos esquecer que há muita força nessas reuniões. Senão, não era a primeira medida das ditaduras: proibir reuniões de um tal número de gente. Apesar do risco de "reunite", pessoas que pensam e tem problemas semenhantes se agregarem em reuniões, debates e passeatas tem efeitos inesperados. A democracia provoca efeitos inesperados, graças à Deus! E uma passeata festiva, com poucia publicidade na mídia main stream tem uma função interna super importante. A gente se reconhece. Vê que está na "parada" e vê mais ou menos a força dessas idéias. É uma energia festiva, politizada, importante. Acho que, pelo menos, desde a Revolução Francesa o povo efetivamente faz da luta uma festa e se reenergiza com ela para seguir  adiante. Mas como sempre, o grande problema é identificar e neutralizar os inimigos. E a ditadura ruralista do governo Dilma realmente requer habilidade política para o enfrentamento. A "louca barrageira" - como bem definiu um cartaz empunhado bravamente  por um grupo de antropólogos, a   "fantoche dos ruralistas" - by SOS Mata Atlântica -  e das empreiteiras que mandam nesse país, representa o PT envergonhado, o PT encolhido, que ao invés de ousar as transformações profundas que o país precisa, atacando de fato o monopólio fundiário,  fortalece como nunca antes se viu, no pós-ditadura militar,  a turma do atraso, que monopoliza riqueza e recursos naturais de uma forma criminosa e ofensiva para a sociedade brasileira, ameaçando cada vez mais o que ainda temos de melhor nos nossos sertões: rios, florestas abundantes, culturas rústicas e ecologicamente sábias, em suma, conhecimento e formas de vida que são cada vez mais estratégicos em um mundo colapsado pela iminente mudança climática. Como cidadâ, acho insuportável  essa contradição de receber uma Rio+20 e ter um quadro de mudança institucional como a do Código Florestal, este, curiosamente uma lei  da ditadura militar, de quando nem se falava em ecologia. Ate a nossa ditadura era mais avançado ecológicamente do que a Dilma. Criou essa lei escutando a ciência, especialistas e não a bancada ruralista, como vergonhosa participação do PCdoB. De fato, um dos primeiros movimentos de luta ambiental no mundo começou no Rio Grande do Sul: a AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), fundada em 1971 e que teve como primeiro presidente José Lutzemberger,. Éramos a vanguarda até. Incrível o PT chegar ao poder e preferir, ao invés de promover as mudanças sociais que o Brasil precisa,  fazer o trabalho sujo para a direita em troca da sua manutenção no poder. Como se fosse possível implantar o rumo que esse país pode ter  como destino: ser a vanguarda da criação de um modo de vida  socialmente justo e ecologicamente sustentável, sujando as mãos nos almoços e jantares como nossos inimigos.