quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Não gostar do Rio
Não gostar do Rio é um ato de sabotagem. É não gostar de seu idioma próprio. É um ato de solidão.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Irmã Dorothy e a “mãe dos problemas do Brasil”
Em tempos em que as manchetes dos jornais são tomadas com a informação mal apurada de que o INCRA (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) é o responsável pela maior parte dos desmatamentos do país, foi um alívio a estréia do documentário “Mataram irmã Dorothy” com debate mediado pelo ator Wagner Moura na terça, dia 30, no Festival de Cinema do Rio.
Alívio porque, enfim, um filme com informações sobre um tema que está selando o destino da Amazônia, fronteira agrícola disputada a ferro e fogo, obviamente sem o grande charme narrativo dos grandes Westerns, que, afinal de contas, foi o jeito que os norte-americanos inventaram de celebrar a sangrenta conquista do Oeste deles. Infelizmente, no nosso caso, os esfarrapados sem-terra não são vistos como heróis nem são tão charmosos quanto os cowboys deles. Infelizmente, nossos heróis e heroínas, como irmã Dorothy, quando ficam conhecidos, já é porque se tornaram mártires.
Além disso, seria pedir muito que o filme explicasse que os responsáveis diretos sobre essa realidade são oriundos do incensado “agronegócio” da soja e da carne, que junto com os minérios explorados pela privatizada Vale do Rio Doce são os atuais filões da carreira exportadora que o Brasil repete em maior ou menor grau desde 1500 na esteira das altas cotações do mercado mundial. Afinal, desde então, somos exportadores de matéria-prima e exploradores predatórios especializados em deixar à margem de seus surtos desenvolvimentistas uma imensa população de pobres agricultores humildes, freqüentemente obrigados a colocar a trouxa nas costas quando aparecem homens armados com falsos registros de cartório reivindicando a terra que em viviam desde sempre.
O interessante do filme é que sua história praticamente foi se desenrolando diante da própria equipe de filmagens, liderada pelo diretor norte-americano Daniel Junge, que não tinha idéia de qual ia ser o desfecho dessa trama. O diretor, que começou a filmar exatos 10 dias depois do assassinato, ao acompanhar o irmão de Dorothy em sua viagem para o Brasil, tinha intenção de não fazer um filme sobre uma santa e um bando de homens diabólicos, mas a força dos fatos que ele apura, incluindo-se memoráveis depoimentos dos advogados de defesa dos acusados, acaba depondo contra sua intenção. Isto porque a escandalosa impunidade e devastação retratada pelo filme, promovida por setores vinculados ao latifúndio, à monocultura e à escravidão continua a se reproduzir porque o Sul do país vive de costas e muito distante da Amazônia, como ilustrou comovente depoimento de uma participante do debate. É a desinformação e a falta de presença do Estado na região que permite que bandos de grileiros continuem a queimar a floresta para criar gado, repetindo um.processo de ocupação de terras já denunciado no século XIX por figuras derrotadas da história como José Bonifácio e Joaquim Nabuco.
O interessante do filme é que ele, inclusive, demonstra que tipo de gente hoje em dia anda esgrimindo o argumento da “soberania nacional ameaçada” quando se trata de Terras Indígenas, como a da Raposa Serra do Sol, e do engessamento do desenvolvimento, quando seus interesses são ameaçados pelas reivindicações de posse de quilombolas e caboclos ribeirinhos.
Mas foi no debate, mediado pelo ator Wagner Moura, que classificou a questão da terra como “a mãe dos problemas do Brasil”, onde surgiu à tona depoimentos reveladores dos mundos paralelos que hoje acossam os brasileiros. Uma estudante contou ter feito um estágio de seis meses na Amazônia, onde descobriu surpresa que se sentia mais estrangeira lá do que no exterior. Emocionada, contou a história de Bruna, colega que fez parte do mesmo programa, e que, já formada, decidiu viver na Amazônia para contribuir com os movimentos sociais, mas faleceu recentemente, aos 20 poucos anos, em um suspeito acidente de carro.
No entanto, foi talvez a questão de uma moça da Vila Penha, subúrbio do Rio, que trouxe mais para perto de todos os presentes a compreensão do que se passa na Amazônia e da própria vida de Dorothy. A moça perguntou aos participantes da mesa como continuar lutando quando se enfrenta uma realidade tão violenta como a de seu bairro, onde até a procissão da padroeira tem que ser em determinado horário por conta das ordens dos traficantes.Companheiro das lutas da irmã, o procurador da República Felício Pontes confessou que logo que soube do assassinato da freira - ocorrido no dia em que comemorava-se a criação de uma enorme reserva extrativista (Resex) na Terra do Meio, também no Pará - ele se sentiu tão impotente que achou que não adiantava mais fazer nada. Logo que chegou a Anapu, para o enterro, foi cercado e abraçado pelos agricultores do projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), cujas terras custaram a vida de Dorothy. Nesse momento o procurador percebeu que ali estava a energia para ir adiante. Todos ali estavam dispostos a continuar lutando até o fim. Afinal, agora iam ter que matar todos para lhes tomar aquela terra. Um sentimento que só sente quem tem a experiência de participar de um desses combates, geralmente deflagrados sem grandes repercussões, mas que vão delineando o destino da humanidade e deste planeta. Em suma, um sentimento compartilhado por pessoas que tiram grande parte de sua satisfação emocional do fato de se sentirem atores de lutas, às vezes derrotadas, às vezes vitoriosas, mas que implicam a escolha de caminhos voltados para a emancipação humana e não para o lucro individual. Daí talvez venham os laços duráveis de amizade e solidariedade e que, em si, sempre valem a pena cultivar contras as almas que insistem em ficar pequenas.
Alívio porque, enfim, um filme com informações sobre um tema que está selando o destino da Amazônia, fronteira agrícola disputada a ferro e fogo, obviamente sem o grande charme narrativo dos grandes Westerns, que, afinal de contas, foi o jeito que os norte-americanos inventaram de celebrar a sangrenta conquista do Oeste deles. Infelizmente, no nosso caso, os esfarrapados sem-terra não são vistos como heróis nem são tão charmosos quanto os cowboys deles. Infelizmente, nossos heróis e heroínas, como irmã Dorothy, quando ficam conhecidos, já é porque se tornaram mártires.
Além disso, seria pedir muito que o filme explicasse que os responsáveis diretos sobre essa realidade são oriundos do incensado “agronegócio” da soja e da carne, que junto com os minérios explorados pela privatizada Vale do Rio Doce são os atuais filões da carreira exportadora que o Brasil repete em maior ou menor grau desde 1500 na esteira das altas cotações do mercado mundial. Afinal, desde então, somos exportadores de matéria-prima e exploradores predatórios especializados em deixar à margem de seus surtos desenvolvimentistas uma imensa população de pobres agricultores humildes, freqüentemente obrigados a colocar a trouxa nas costas quando aparecem homens armados com falsos registros de cartório reivindicando a terra que em viviam desde sempre.
O interessante do filme é que sua história praticamente foi se desenrolando diante da própria equipe de filmagens, liderada pelo diretor norte-americano Daniel Junge, que não tinha idéia de qual ia ser o desfecho dessa trama. O diretor, que começou a filmar exatos 10 dias depois do assassinato, ao acompanhar o irmão de Dorothy em sua viagem para o Brasil, tinha intenção de não fazer um filme sobre uma santa e um bando de homens diabólicos, mas a força dos fatos que ele apura, incluindo-se memoráveis depoimentos dos advogados de defesa dos acusados, acaba depondo contra sua intenção. Isto porque a escandalosa impunidade e devastação retratada pelo filme, promovida por setores vinculados ao latifúndio, à monocultura e à escravidão continua a se reproduzir porque o Sul do país vive de costas e muito distante da Amazônia, como ilustrou comovente depoimento de uma participante do debate. É a desinformação e a falta de presença do Estado na região que permite que bandos de grileiros continuem a queimar a floresta para criar gado, repetindo um.processo de ocupação de terras já denunciado no século XIX por figuras derrotadas da história como José Bonifácio e Joaquim Nabuco.
O interessante do filme é que ele, inclusive, demonstra que tipo de gente hoje em dia anda esgrimindo o argumento da “soberania nacional ameaçada” quando se trata de Terras Indígenas, como a da Raposa Serra do Sol, e do engessamento do desenvolvimento, quando seus interesses são ameaçados pelas reivindicações de posse de quilombolas e caboclos ribeirinhos.
Mas foi no debate, mediado pelo ator Wagner Moura, que classificou a questão da terra como “a mãe dos problemas do Brasil”, onde surgiu à tona depoimentos reveladores dos mundos paralelos que hoje acossam os brasileiros. Uma estudante contou ter feito um estágio de seis meses na Amazônia, onde descobriu surpresa que se sentia mais estrangeira lá do que no exterior. Emocionada, contou a história de Bruna, colega que fez parte do mesmo programa, e que, já formada, decidiu viver na Amazônia para contribuir com os movimentos sociais, mas faleceu recentemente, aos 20 poucos anos, em um suspeito acidente de carro.
No entanto, foi talvez a questão de uma moça da Vila Penha, subúrbio do Rio, que trouxe mais para perto de todos os presentes a compreensão do que se passa na Amazônia e da própria vida de Dorothy. A moça perguntou aos participantes da mesa como continuar lutando quando se enfrenta uma realidade tão violenta como a de seu bairro, onde até a procissão da padroeira tem que ser em determinado horário por conta das ordens dos traficantes.Companheiro das lutas da irmã, o procurador da República Felício Pontes confessou que logo que soube do assassinato da freira - ocorrido no dia em que comemorava-se a criação de uma enorme reserva extrativista (Resex) na Terra do Meio, também no Pará - ele se sentiu tão impotente que achou que não adiantava mais fazer nada. Logo que chegou a Anapu, para o enterro, foi cercado e abraçado pelos agricultores do projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), cujas terras custaram a vida de Dorothy. Nesse momento o procurador percebeu que ali estava a energia para ir adiante. Todos ali estavam dispostos a continuar lutando até o fim. Afinal, agora iam ter que matar todos para lhes tomar aquela terra. Um sentimento que só sente quem tem a experiência de participar de um desses combates, geralmente deflagrados sem grandes repercussões, mas que vão delineando o destino da humanidade e deste planeta. Em suma, um sentimento compartilhado por pessoas que tiram grande parte de sua satisfação emocional do fato de se sentirem atores de lutas, às vezes derrotadas, às vezes vitoriosas, mas que implicam a escolha de caminhos voltados para a emancipação humana e não para o lucro individual. Daí talvez venham os laços duráveis de amizade e solidariedade e que, em si, sempre valem a pena cultivar contras as almas que insistem em ficar pequenas.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
A Plutocracia contra Lacerda
É curioso, enquanto o Daniel Dantas continua solto, há vários indícios de que sua atuação é criminosa, vide a necessidade de aprender mais de 500 milhões de reais que ele movimentava suspeitamente no início de setembro, os punidos são os responsáveis pelas investigações que apontaram sua extensa ficha criminal.
Lula demonstra ser um presidente covarde, como poucas vezes se viu em ação.
Ou o PT de Lula realmente tem muitos interesses com Daniel Dantas.
Não pode haver outra razão do que esta para ele afastar definitivamente um policial honrado, com ficha limpa e vários serviços prestados ao Estado, como Paulo Lacerda.
Só isso justificaria a sanha do governo contra policiais que estavam simplesmente cumprindo sua função de defender o Estado brasileiro dessa curriola de plutocratas que infestaram a república brasileira depois do governo FHC e da qual, Nelson Jobin, hoje Ministro da Defesa, foi sempre um prócere.
É provavelmente Jobin que manda os recados do PSDB e da plutocracia nacional sobre o que Lula pode ou não fazer. Qual é seu espaço de manobra para atuar sem mexer nos interesses de uma gente hoje podre de rica e que enriqueceu sobremaneira durante as privatizações encabeçadas pelo PSDB, seus economistas de plantão e que, agora, envergonhadamente, Lula tem que encampar....para, quem sabe, conseguir arrancar dessa gente a tal estatal petrolífera...Lula subestima o quanto a sociedade brasileira pode lhe dar respaldo para isso, neutralizando esses setores.
Só gostaria de saber onde anda o movimento estudantil. Todo um arcabouço de escândalos infestam vários poderes da república, a começar pelo que deveria parecer mais isento, o STF de Gilmar Mendes, e essa juventude anda aí fazendo não sei bem o quê.
E o curioso é os jornalistas repetirem o que fontes do governo ou do PSDB acham. De que a carreira de Protógenes Queiroz foi para o brejo.
Gosto de ver a estupidez dos que andam em volta do poder. Eles subestimam a capacidade de indignação da sociedade, que, na verdade, já foi contaminada com a sensação de que algo de muito podre existe no reino de Lula, para entrar tão de mansinho nesse esquema de encamapar os golpes que essa imprensa tucana vive lhe aprontando.
Eles só esquecem que já há um setor difuso na sociedade que faz leituras independentes e que, diante de um pequeno rastilho de pólvora, podem explodir. Não porque eles dominem o poder institucional, mas porque eles estão infiltrados profissionalmente em setores importantes da sociedade. Da mesma maneira que a onda parece varrer agora figuras como Lacereda e Queiroz do mapa, ela pode voltar com muito mais altura e força, varrendo todos esses esquálidos representantes de um poder mesquinho, como o do PSDB, e apequenado, como o de Lula.
Lula demonstra ser um presidente covarde, como poucas vezes se viu em ação.
Ou o PT de Lula realmente tem muitos interesses com Daniel Dantas.
Não pode haver outra razão do que esta para ele afastar definitivamente um policial honrado, com ficha limpa e vários serviços prestados ao Estado, como Paulo Lacerda.
Só isso justificaria a sanha do governo contra policiais que estavam simplesmente cumprindo sua função de defender o Estado brasileiro dessa curriola de plutocratas que infestaram a república brasileira depois do governo FHC e da qual, Nelson Jobin, hoje Ministro da Defesa, foi sempre um prócere.
É provavelmente Jobin que manda os recados do PSDB e da plutocracia nacional sobre o que Lula pode ou não fazer. Qual é seu espaço de manobra para atuar sem mexer nos interesses de uma gente hoje podre de rica e que enriqueceu sobremaneira durante as privatizações encabeçadas pelo PSDB, seus economistas de plantão e que, agora, envergonhadamente, Lula tem que encampar....para, quem sabe, conseguir arrancar dessa gente a tal estatal petrolífera...Lula subestima o quanto a sociedade brasileira pode lhe dar respaldo para isso, neutralizando esses setores.
Só gostaria de saber onde anda o movimento estudantil. Todo um arcabouço de escândalos infestam vários poderes da república, a começar pelo que deveria parecer mais isento, o STF de Gilmar Mendes, e essa juventude anda aí fazendo não sei bem o quê.
E o curioso é os jornalistas repetirem o que fontes do governo ou do PSDB acham. De que a carreira de Protógenes Queiroz foi para o brejo.
Gosto de ver a estupidez dos que andam em volta do poder. Eles subestimam a capacidade de indignação da sociedade, que, na verdade, já foi contaminada com a sensação de que algo de muito podre existe no reino de Lula, para entrar tão de mansinho nesse esquema de encamapar os golpes que essa imprensa tucana vive lhe aprontando.
Eles só esquecem que já há um setor difuso na sociedade que faz leituras independentes e que, diante de um pequeno rastilho de pólvora, podem explodir. Não porque eles dominem o poder institucional, mas porque eles estão infiltrados profissionalmente em setores importantes da sociedade. Da mesma maneira que a onda parece varrer agora figuras como Lacereda e Queiroz do mapa, ela pode voltar com muito mais altura e força, varrendo todos esses esquálidos representantes de um poder mesquinho, como o do PSDB, e apequenado, como o de Lula.
domingo, 13 de julho de 2008
O fidalgo e a vagabunda
Até trazer uma desnutrida gatinha para fazer companhia a meu gato de meia idade, não sabia que tinha criado um gato fidalgo. Foi a esfomeada e vagabunda gatinha que me fez dar-me conta de que o gato amarelo e branco, com uma pinta charmosa na bochecha....era um gato nobre. Fresco eu já sabia que ele era, mas a nobreza dele é algo que tem a ver com disposições felinas curiosas.
Ela, batizada de Filó, come qualquer coisa que lhe coloquem no prato. Prefere sempre ir direto no prato dele pois parte do princípio que o que tem no dele é melhor do que o dela.
Ele, diante do ataque em seu prato, ao invés de uma patata certeira e um grunhido feroz... simplesmente se afastava. Mas como o convívio sempre vai contaminando uns aos outros, hoje me surprendi com meu Gato, diante das mesma ração colocada nos dois pratinhos... preferir comer no prato dela...Deve ter começado inclusive a checar os restos de carne e coisas afins que coloco no prato dela...e quem sabe vai começar a experimentar novas sensações na vida do que as aborrecidas rações de gatos.
Ela, batizada de Filó, come qualquer coisa que lhe coloquem no prato. Prefere sempre ir direto no prato dele pois parte do princípio que o que tem no dele é melhor do que o dela.
Ele, diante do ataque em seu prato, ao invés de uma patata certeira e um grunhido feroz... simplesmente se afastava. Mas como o convívio sempre vai contaminando uns aos outros, hoje me surprendi com meu Gato, diante das mesma ração colocada nos dois pratinhos... preferir comer no prato dela...Deve ter começado inclusive a checar os restos de carne e coisas afins que coloco no prato dela...e quem sabe vai começar a experimentar novas sensações na vida do que as aborrecidas rações de gatos.
Sol de Inverno
Não há nada mais sinalizador da falta que nos faz o sol quando depois de um longo período de frio e chuva, ele nos aparece em todo o seu esplendor em um dia de inverno para aquecer nossa carne.
Enquanto sentia seu calor suave, me dei conta que talvez a única coisa que nos liga de fato a outros seres humanos é a carne.
A gente vem da carne dos nossos pais e pela carne nos unimos a outra pessoa com possibilidade ou não de gerar descendentes. Toleramos essa intimidade porque algo nessa carne alheia nos parece vital. Mas nos resumimos a isso: sensíveis tecidos transpassados de odores e irrigados por sangue quente.
Mas essa seleção das carnes vitais é estranha e permeada de apectos menos tácteis os sonhos e as decepções. Assombrada por expectativas, temores e fantasmas.
Mas sempre um dia de sol no inverno seja lá onde for tem o poder de despertar algo confortável e esperançoso que renova algo na nossa carne. Pode ser puramente etéreo. Já tá valendo.
Enquanto sentia seu calor suave, me dei conta que talvez a única coisa que nos liga de fato a outros seres humanos é a carne.
A gente vem da carne dos nossos pais e pela carne nos unimos a outra pessoa com possibilidade ou não de gerar descendentes. Toleramos essa intimidade porque algo nessa carne alheia nos parece vital. Mas nos resumimos a isso: sensíveis tecidos transpassados de odores e irrigados por sangue quente.
Mas essa seleção das carnes vitais é estranha e permeada de apectos menos tácteis os sonhos e as decepções. Assombrada por expectativas, temores e fantasmas.
Mas sempre um dia de sol no inverno seja lá onde for tem o poder de despertar algo confortável e esperançoso que renova algo na nossa carne. Pode ser puramente etéreo. Já tá valendo.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Imprensa fofoqueira e mira obtusa
Apesar dos inestimáveis serviços que muitas vezes a imprensa "livre" nacional desempenhou para a nação, em períodos como o chamado "mar de lama" que levou Getúlio Vargas ao suicídio, o "golpe de 64" sobre o governo sindical do Jango, temos que reconhecer que a imprensa tupiniquim continua a se superar.... Mas na falta de coisa melhor, o tema é cartões corporativos.
É uma fofoca sem fim. A única coisa que eu constato é que ninguém nesse governo, nem mesmo a "bola da vez" chamada Dilma Roussef, tem "peitos" para questionar esse assunto como se devia.
Afinal, qual é o problema investigar o uso dos cartões corporativos pelo governo anterior?
Não foi aquele governo que implementou essa prática? Devemos investigar o uso dos cartões corporativos anualmente e de todos os governos. Assim se constrói vigilância pública sobre representantes eleitos e membros de seu governo o tempo todo! E é disso que os brasileiros precisam. Verificar constantemente os gastos públicos de seus governos de modo a efetuar um controle verdadeiramente público sobre eles.
A histeria da imprensa tucana engana quem quer. Por isso, esse tema vai sumir rapidamente, logo que explodam os conflitos reais e sangrentos que se desenham no norte desse país, mais precisamente em sua fronteira, na reserva da Raposa da Serra do Sol.
É uma fofoca sem fim. A única coisa que eu constato é que ninguém nesse governo, nem mesmo a "bola da vez" chamada Dilma Roussef, tem "peitos" para questionar esse assunto como se devia.
Afinal, qual é o problema investigar o uso dos cartões corporativos pelo governo anterior?
Não foi aquele governo que implementou essa prática? Devemos investigar o uso dos cartões corporativos anualmente e de todos os governos. Assim se constrói vigilância pública sobre representantes eleitos e membros de seu governo o tempo todo! E é disso que os brasileiros precisam. Verificar constantemente os gastos públicos de seus governos de modo a efetuar um controle verdadeiramente público sobre eles.
A histeria da imprensa tucana engana quem quer. Por isso, esse tema vai sumir rapidamente, logo que explodam os conflitos reais e sangrentos que se desenham no norte desse país, mais precisamente em sua fronteira, na reserva da Raposa da Serra do Sol.
quinta-feira, 6 de março de 2008
O que se perde com a privatização do Bonde de Santa Teresa
Dia desses, pegando o bonde do Largo do Carioca para subir para Santa Teresa vi uma cena que, para mim, sintetiza porque é um absurdo que ainda seja possível algum "ser" que se considera "político" propor a privatização do Bonde de Santa Teresa, pois isso revela a visão torpe, distorcida e burra que costumeiramente acomete alguns "administradores" de bens públicos no Brasil.
O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher o lugar para sentar enquanto tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele partir rumo ao morro. Pouco depois de eu me aboletar estrategicamente na ponta esquerda, para tomar todo o vento que tenho direito, chegou um grupo de turistas alemães da chamada "terceira idade". Aposentados ricos que agora passam a vida a conhecer o mundo. A guia, uma brasileira, provavelmente de origem alemã, com seu irrepreensível domínio do idioma estrangeiro explicava ao grupo para onde íamos, etc. Claro que ela também não deixou escapar a oportunidade de mostrar a seus turistas o quão brasileira ela era, tirando onda da moça que queria subir o morro pendurada no estribo do bonde, para quem insistentemente ofereciam um dos lugares livres para ela sentar.
O bonde começou a encher e, justamente quando motorneiro ia partir, chegaram os retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, ele estava lá aguardando esse grupo.
Desnecessário dizer que todos os turistas alemães são brancos... branquelas, mais precisamente. Mas comecei a prestar atenção nisso, comparando-os com os brasileiros que chegavam, com aquelas morenices variadas. Entre as retardatárias, apareceu uma morena esguia, com saias longas, cebelos compridos, uma verdadeira "moura", do tipo das que na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com os lenços tapando os cabelos e sua beleza. Um dos velhos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo para trás, onde ela sentou, foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.
Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Estavam chegando duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente moradoras de uma das favelas do bairro. Eram conhecidas ou não dos funcionários do bonde. Não importa. Eram moradoras do bairro, e o motorneiro deu marcha ré no bonde para que elas subissem e se instalassem mais confortavelmente, no caso, no lado dos alemães que achavam que iam poder subir folgados no bonde. Afinal, cada banco é para quatro pessoas. E essa regra é cumprida à risca.
Na hora me dei conta de como eu nunca poderia ver isso na Europa Ocidental. Não sei nem mesmo se isso é ainda possível na Itália, em Portugal ou na Espanha. Lá se deu o horário; se o ônibus parou no ponto e fechou a porta, mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, ele não vai abrir a porta para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Rio de Janeiro e no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos "personalistas". Abrimos sempre excessão para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para um brecha possível. Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles tenham cada um seus tipos de "jeitinhos", eles perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de exceção que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se "dar bem". Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno. A vida social, no Rio de Janeiro, pelo menos, se caracteriza por regras tácitas de convívio em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual nós procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Ma invariavelmente, adoramos abrir exceções. Não aguentamos. O único problema é que realmente, para a gente chegar perto de uma maior "justiça social", nós temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.
Voltando à questão do bonde. Se como quer o tal Julio Lopes, ele privatizar os bondes, dando-os de presente para a turma dos trens do Corcovado, ele vai virar bonde de turista. Vai sair no horário. Vai ser limpinho. Sem grandes problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar enclapsulados nesses oásis turísticos assépticos, tirar fotografia e esquecer o que viveram. Pois um país a gente conhece no meio de seu povo. E o povo brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. Um povo que é europeu, africano e índio ao mesmo tempo. Eles vão perder de ver uma cena como essa. De sentar ao lado de gente colorida, que expressam nessa raça brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde bonde que atrasa seu horário para que os passageiros retardatários cheguem e depois de andar, dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana.
Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito de mencionar essa proposta ridícula, este senhor passa por cima de uma luta empreendida pelos moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse existir. Sim, por que se fosse depender de políticos da laia dele, esse bonde não existiriaa mais, e o pitoresco passeio turístico que ele quer privilegiar, não existiria. Ao se dar a ousadia de pensar sobre isso, ele dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha desses políticos obtusos.
Mas o mais grave mesmo, é que os moradores do bairro iriam perder o que lhes é de direito, pelo qual lutaram. E se dependessem só do ônibus que serve o bairro, viveriam torturados pelos gastos astronômicos que teriam de transporte. É importante ter em mente que o transporte público no Rio de Janeiro é mais caro do que em Paris e é 100 vezes pior.
Em suma, a população pobre e de renda média, que não tem carro, que depende sofrendo do tranporte público e do bonde, perderia o serviço e ainda por cima pagaria a conta, pois esse tal empréstimo do Banco Mundial que saiu para reformar a linha permanente- que está um escândalo de mal feita- e os bondes - cujo protótipo custou 1 milhão mas seus engenheiros não se deram ao trabalho de projetá-lo para encaixar nos trilhos - é pago por toda a população do estado do Rio de Janeiro. Se o secretário der de presente o bonde para a turma do Corcovado, como ele já declarou publicamente, a maioria dos que vão pagar esse empréstico certamente não vai poder pagar as tarifas que eles cobram, para poder fazer o que sempre fez: andar de bondinho para ir para casa, para ir para o trabalho, para estudar. Ela vai pagar para o turista desfrutar predatoriamente de seu direito adquirido.
O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher o lugar para sentar enquanto tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele partir rumo ao morro. Pouco depois de eu me aboletar estrategicamente na ponta esquerda, para tomar todo o vento que tenho direito, chegou um grupo de turistas alemães da chamada "terceira idade". Aposentados ricos que agora passam a vida a conhecer o mundo. A guia, uma brasileira, provavelmente de origem alemã, com seu irrepreensível domínio do idioma estrangeiro explicava ao grupo para onde íamos, etc. Claro que ela também não deixou escapar a oportunidade de mostrar a seus turistas o quão brasileira ela era, tirando onda da moça que queria subir o morro pendurada no estribo do bonde, para quem insistentemente ofereciam um dos lugares livres para ela sentar.
O bonde começou a encher e, justamente quando motorneiro ia partir, chegaram os retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, ele estava lá aguardando esse grupo.
Desnecessário dizer que todos os turistas alemães são brancos... branquelas, mais precisamente. Mas comecei a prestar atenção nisso, comparando-os com os brasileiros que chegavam, com aquelas morenices variadas. Entre as retardatárias, apareceu uma morena esguia, com saias longas, cebelos compridos, uma verdadeira "moura", do tipo das que na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com os lenços tapando os cabelos e sua beleza. Um dos velhos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo para trás, onde ela sentou, foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.
Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Estavam chegando duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente moradoras de uma das favelas do bairro. Eram conhecidas ou não dos funcionários do bonde. Não importa. Eram moradoras do bairro, e o motorneiro deu marcha ré no bonde para que elas subissem e se instalassem mais confortavelmente, no caso, no lado dos alemães que achavam que iam poder subir folgados no bonde. Afinal, cada banco é para quatro pessoas. E essa regra é cumprida à risca.
Na hora me dei conta de como eu nunca poderia ver isso na Europa Ocidental. Não sei nem mesmo se isso é ainda possível na Itália, em Portugal ou na Espanha. Lá se deu o horário; se o ônibus parou no ponto e fechou a porta, mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, ele não vai abrir a porta para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Rio de Janeiro e no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos "personalistas". Abrimos sempre excessão para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para um brecha possível. Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles tenham cada um seus tipos de "jeitinhos", eles perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de exceção que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se "dar bem". Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno. A vida social, no Rio de Janeiro, pelo menos, se caracteriza por regras tácitas de convívio em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual nós procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Ma invariavelmente, adoramos abrir exceções. Não aguentamos. O único problema é que realmente, para a gente chegar perto de uma maior "justiça social", nós temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.
Voltando à questão do bonde. Se como quer o tal Julio Lopes, ele privatizar os bondes, dando-os de presente para a turma dos trens do Corcovado, ele vai virar bonde de turista. Vai sair no horário. Vai ser limpinho. Sem grandes problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar enclapsulados nesses oásis turísticos assépticos, tirar fotografia e esquecer o que viveram. Pois um país a gente conhece no meio de seu povo. E o povo brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. Um povo que é europeu, africano e índio ao mesmo tempo. Eles vão perder de ver uma cena como essa. De sentar ao lado de gente colorida, que expressam nessa raça brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde bonde que atrasa seu horário para que os passageiros retardatários cheguem e depois de andar, dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana.
Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito de mencionar essa proposta ridícula, este senhor passa por cima de uma luta empreendida pelos moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse existir. Sim, por que se fosse depender de políticos da laia dele, esse bonde não existiriaa mais, e o pitoresco passeio turístico que ele quer privilegiar, não existiria. Ao se dar a ousadia de pensar sobre isso, ele dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha desses políticos obtusos.
Mas o mais grave mesmo, é que os moradores do bairro iriam perder o que lhes é de direito, pelo qual lutaram. E se dependessem só do ônibus que serve o bairro, viveriam torturados pelos gastos astronômicos que teriam de transporte. É importante ter em mente que o transporte público no Rio de Janeiro é mais caro do que em Paris e é 100 vezes pior.
Em suma, a população pobre e de renda média, que não tem carro, que depende sofrendo do tranporte público e do bonde, perderia o serviço e ainda por cima pagaria a conta, pois esse tal empréstimo do Banco Mundial que saiu para reformar a linha permanente- que está um escândalo de mal feita- e os bondes - cujo protótipo custou 1 milhão mas seus engenheiros não se deram ao trabalho de projetá-lo para encaixar nos trilhos - é pago por toda a população do estado do Rio de Janeiro. Se o secretário der de presente o bonde para a turma do Corcovado, como ele já declarou publicamente, a maioria dos que vão pagar esse empréstico certamente não vai poder pagar as tarifas que eles cobram, para poder fazer o que sempre fez: andar de bondinho para ir para casa, para ir para o trabalho, para estudar. Ela vai pagar para o turista desfrutar predatoriamente de seu direito adquirido.
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