quarta-feira, 9 de abril de 2008

Imprensa fofoqueira e mira obtusa

Apesar dos inestimáveis serviços que muitas vezes a imprensa "livre" nacional desempenhou para a nação, em períodos como o chamado "mar de lama" que levou Getúlio Vargas ao suicídio, o "golpe de 64" sobre o governo sindical do Jango, temos que reconhecer que a imprensa tupiniquim continua a se superar.... Mas na falta de coisa melhor, o tema é cartões corporativos.
É uma fofoca sem fim. A única coisa que eu constato é que ninguém nesse governo, nem mesmo a "bola da vez" chamada Dilma Roussef, tem "peitos" para questionar esse assunto como se devia.
Afinal, qual é o problema investigar o uso dos cartões corporativos pelo governo anterior?
Não foi aquele governo que implementou essa prática? Devemos investigar o uso dos cartões corporativos anualmente e de todos os governos. Assim se constrói vigilância pública sobre representantes eleitos e membros de seu governo o tempo todo! E é disso que os brasileiros precisam. Verificar constantemente os gastos públicos de seus governos de modo a efetuar um controle verdadeiramente público sobre eles.
A histeria da imprensa tucana engana quem quer. Por isso, esse tema vai sumir rapidamente, logo que explodam os conflitos reais e sangrentos que se desenham no norte desse país, mais precisamente em sua fronteira, na reserva da Raposa da Serra do Sol.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O que se perde com a privatização do Bonde de Santa Teresa

Dia desses, pegando o bonde do Largo do Carioca para subir para Santa Teresa vi uma cena que, para mim, sintetiza porque é um absurdo que ainda seja possível algum "ser" que se considera "político" propor a privatização do Bonde de Santa Teresa, pois isso revela a visão torpe, distorcida e burra que costumeiramente acomete alguns "administradores" de bens públicos no Brasil.
O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher o lugar para sentar enquanto tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele partir rumo ao morro. Pouco depois de eu me aboletar estrategicamente na ponta esquerda, para tomar todo o vento que tenho direito, chegou um grupo de turistas alemães da chamada "terceira idade". Aposentados ricos que agora passam a vida a conhecer o mundo. A guia, uma brasileira, provavelmente de origem alemã, com seu irrepreensível domínio do idioma estrangeiro explicava ao grupo para onde íamos, etc. Claro que ela também não deixou escapar a oportunidade de mostrar a seus turistas o quão brasileira ela era, tirando onda da moça que queria subir o morro pendurada no estribo do bonde, para quem insistentemente ofereciam um dos lugares livres para ela sentar.
O bonde começou a encher e, justamente quando motorneiro ia partir, chegaram os retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, ele estava lá aguardando esse grupo.
Desnecessário dizer que todos os turistas alemães são brancos... branquelas, mais precisamente. Mas comecei a prestar atenção nisso, comparando-os com os brasileiros que chegavam, com aquelas morenices variadas. Entre as retardatárias, apareceu uma morena esguia, com saias longas, cebelos compridos, uma verdadeira "moura", do tipo das que na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com os lenços tapando os cabelos e sua beleza. Um dos velhos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo para trás, onde ela sentou, foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.
Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Estavam chegando duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente moradoras de uma das favelas do bairro. Eram conhecidas ou não dos funcionários do bonde. Não importa. Eram moradoras do bairro, e o motorneiro deu marcha ré no bonde para que elas subissem e se instalassem mais confortavelmente, no caso, no lado dos alemães que achavam que iam poder subir folgados no bonde. Afinal, cada banco é para quatro pessoas. E essa regra é cumprida à risca.
Na hora me dei conta de como eu nunca poderia ver isso na Europa Ocidental. Não sei nem mesmo se isso é ainda possível na Itália, em Portugal ou na Espanha. Lá se deu o horário; se o ônibus parou no ponto e fechou a porta, mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, ele não vai abrir a porta para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Rio de Janeiro e no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos "personalistas". Abrimos sempre excessão para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para um brecha possível. Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles tenham cada um seus tipos de "jeitinhos", eles perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de exceção que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se "dar bem". Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno. A vida social, no Rio de Janeiro, pelo menos, se caracteriza por regras tácitas de convívio em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual nós procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Ma invariavelmente, adoramos abrir exceções. Não aguentamos. O único problema é que realmente, para a gente chegar perto de uma maior "justiça social", nós temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.
Voltando à questão do bonde. Se como quer o tal Julio Lopes, ele privatizar os bondes, dando-os de presente para a turma dos trens do Corcovado, ele vai virar bonde de turista. Vai sair no horário. Vai ser limpinho. Sem grandes problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar enclapsulados nesses oásis turísticos assépticos, tirar fotografia e esquecer o que viveram. Pois um país a gente conhece no meio de seu povo. E o povo brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. Um povo que é europeu, africano e índio ao mesmo tempo. Eles vão perder de ver uma cena como essa. De sentar ao lado de gente colorida, que expressam nessa raça brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde bonde que atrasa seu horário para que os passageiros retardatários cheguem e depois de andar, dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana.
Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito de mencionar essa proposta ridícula, este senhor passa por cima de uma luta empreendida pelos moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse existir. Sim, por que se fosse depender de políticos da laia dele, esse bonde não existiriaa mais, e o pitoresco passeio turístico que ele quer privilegiar, não existiria. Ao se dar a ousadia de pensar sobre isso, ele dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha desses políticos obtusos.
Mas o mais grave mesmo, é que os moradores do bairro iriam perder o que lhes é de direito, pelo qual lutaram. E se dependessem só do ônibus que serve o bairro, viveriam torturados pelos gastos astronômicos que teriam de transporte. É importante ter em mente que o transporte público no Rio de Janeiro é mais caro do que em Paris e é 100 vezes pior.
Em suma, a população pobre e de renda média, que não tem carro, que depende sofrendo do tranporte público e do bonde, perderia o serviço e ainda por cima pagaria a conta, pois esse tal empréstimo do Banco Mundial que saiu para reformar a linha permanente- que está um escândalo de mal feita- e os bondes - cujo protótipo custou 1 milhão mas seus engenheiros não se deram ao trabalho de projetá-lo para encaixar nos trilhos - é pago por toda a população do estado do Rio de Janeiro. Se o secretário der de presente o bonde para a turma do Corcovado, como ele já declarou publicamente, a maioria dos que vão pagar esse empréstico certamente não vai poder pagar as tarifas que eles cobram, para poder fazer o que sempre fez: andar de bondinho para ir para casa, para ir para o trabalho, para estudar. Ela vai pagar para o turista desfrutar predatoriamente de seu direito adquirido.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Apuração do Carnaval

Até vir morar no Rio de Janeiro e, então, curtir seu carnaval, nunca havia entendido porque passava na TV a apuração das notas das Escolas de Samba e porque tanta gente acompanhava isso com imensa paixão.
No primeiro ano que passei ca rnaval aqui, parti para a Ilha Grande no dia seguinte. Tinha assistido uma noite do desfile das escolas especiais e fiquei, de fato, maravilhada com a passagem da Beija Flor, já dia, mas com uma imponência e uma energia impressionante para quem já andava cochilando na arquibancada. Acordei quando ela entrou na avenida e fiquei tão empolgada que daí tirei energia para cantar todo o desfile e ir para casa, já exausta. Na barca, indo para a Ilha Grande, sentado ao meu lado, estava um casal daqueles brancos meio aloirados dourados pelo sol. Um casal bonito, bem alimentado, provavelmente de classe média alta que acompanhava com impressionante emoção, para meus olhos, a apuração das escolas por um rádio de pilha. Era aquele tipo de casal, estilo Barra da Tijuca, torcendo cada qual por sua escola com incontida emoção. Em suma, quem pensa que aqui há clivagem social na paixão pelo carnaval está completamente errado. Nenhum deles torcia pela Beija-Flor, mas achavam justo se ela ganhasse. E ela merecidamente venceu aquele carnaval de 2005. Em 2006, a Vila Isabel levou com sua homenagem à America Latina, mas em 2007, lá veio a Beija-Flor de novo.
Neste carnaval, não vi desfile, mas acompanhei, por acaso, a apuração em um buteco.
Notei que a cada quesito apurado, rolava aquela emoção de final de campeonato de futebol. Na medida que a Beija-Flor ia ganhando os pontos, reinava a insatisfação. Até que um homem em uma mesa gritou: "Aqui nesse nosso país, tudo é roubado!"
Aí entrei na conversa. Vi que o dono do buteco, silenciosamente torcia para a Beija-Flor, pois ela tinha sido, segundo ele, a melhor. Os outros, torciam para a Portela, Salgueiro, Vila Isabel.... O mesmo que reclamou da suposta roubalheira perguntou para mim para que escola eu torcia.
Eu expliquei que não era do Rio. Era de Porto Alegre e ainda não tinha ainda escolhido uma escola.
E então, ele lembrou: "Terra do Mario Quintana!" e começou a falar emocionado dele.... E aí, eu tive que concordar que aqui nesse país muita coisa é roubada mesmo... Lembramos juntos como é que um poeta como Quintana foi humilhado nunca sendo escolhido para a Academia Brasileira de Letras que tem entre seus membros José Sarney.... e tinha o Roberto Marinho!!!!!
Pois é, pensam que o povo é bobo, mas a cafajestagem às vezes é tão explícita que cria essa desconfiança constante das instituições a ponto de as pessoas desacreditarem dos resultados., não importam quais e de que tipo, o que contamina a vida social com uma espécie de cinismo político. Os cariocas em geral não são nada despolitizados. Tornaram-se cínicos. A revolta sem canal apropriado de expressão desemboca no cinismo e no salve-se quem puder. O troco, o povo dá no carnaval e na sua inversão simbólica, no deboche constante, na gozação.... Mas, no fundo, o que há é sempre uma espécie de frustração, de nos terem tirado o que era justo, sem termos por onde tirara a limpo essa sacanagem de uma vez por todas.
De qualquer modo, a Beija-Flor ganhou..... não sei se por merecimento mesmo...Mas o gosto de que não foi justo ficou na boca das pessoas.
Pelo menos, a Império Serrano, a única escola que eu desfilei até hoje, quando eles homenagearam os sem-terra do MST em 96, foi campeã do grupo de acesso e agora volta a desfilar no grupo especial. Talvez, no fundo, sempre vá torcer mesmo para ela porque quem propicia essa maravilhosa e fugaz emoção de desfilar na avenida vai sempre ter lugar cativo na minha torcida.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A pequena cidade do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro deve ter cerca de 7 milhões de pessoas, mas é uma cidade pequena. Pude resolver minha tendência a depressão por me sentir aparentemente isolada (neurose típica de quem faz tese) dando uma volta por bairros bastante populosos e frequentados dessa cidade como o Centro, o Largo do Machado e o Catete.
Sem brincadeira: encontrei três pessoas queridas, conhecidas, que até precisava encontrar percorrendo essas ruas em plenos afazeres burocráticos do dia a dia. E eu moro aqui a apenas quatro anos!!!! Imagina se eu tivesse nascido!
Em suma, me senti mais uma vez aqueles braços abertos dessa cidade, característica apontada pelo El Pais, na época da seleção das Maravilhas do Mundo Contemporâneo. Na foto legenda que falava da candidatura do Cristo Redentor, o jornal dizia que o famoso monumento representava como o brasileiros recebiam os visitantes: de braços abertos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

À espera do Messias

Ontem era Dia de Reis. Antigamente, em todo o território de tradições ibéricas era o dia em que se ganhava presente, como ainda o é na Espanha. Aqui no Brasil, provavelmente por causa da Coca-cola que inventou o Papai Noel e por causa do Tio Patinhas e seus sobrinhos patos, aprendemos a considerar o dia 24 um dia de se comer Peru em uma ceia e de ganhar presentes.
A parte penosa dessa história é ver os pobres coitados contratados para passarem por Papai Noel nos shoppings... suando em bicas.... enquanto tentam escutar os pedidos das crianças....Ainda se a gente arranjasse uma vestimenta adequada ao Natal tropical para o tal velinho... Ou quem sabe, mudamos o tipo? Talvez um saci-pererê também desse conta do recado... com aquele cachimbo matreiro... Sei lá.... O fato é que acho chato ter perdido a celebração do dia dos Reis Magos... que até na França, tem seus dia celebrado com um bolo delicioso...folhado com marzipan dentro... onde, como outrora aqui, há uma prenda e quem ganhar o pedaço com ela pode até fazer um pedido.
Mas ontem, em uma casa maravilhosa, na Rua Aprazível, em Santa Teresa... esperava-se o Messias, o violeiro que daria voz a uma Folia de Reis. Eu que nunca vi uma Folia, estava ansiosa esperando naquele cenário fantástico... em uma varanda belíssima, voltada para a Baia da Guanabara. Quem diria, o centro do Rio de Janeiro mais uma vez me brindando com uma tradição provavelmente tão antiga quanto os tijolos do convento que dá nome a esse bairro.
Entretanto, o Messias não veio. Havia o pandeirista, um tocador de percussão e improvisamos uma cantoria. E eu cá com meus botões achei uma pena não ter matado a vontade de ver uma Folia de Reis, mas estava tudo certo e condizente para um dia 6 des janeiro. Afinal, celebrávamos o dia e, no fundo, no fundo, não estamos sempre esperando o tal Messias?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Crônicas cariocas - intróito

Esse blog, criado para desafogar minhas impressões de Paris, afetadas pela minha disposição de prestar atenção em como a história, sobretudo a das esquerdas, está presente naquela cidade luz, vai dedicar-se agora a falar desta metáfora escandalosa do Brasil que é a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aqui também tropeça-se na história, mas neste caso, a brasileira. E neste mar de contradições - felizmente - temperadas com o bom humor carioca, vou tentar, também, expressar também minhas impressões. Afinal, sou de Porto Alegre. Não cresci no Rio e tenho também um olhar estrangeiro por essa cidade. Mas adoro, vocês não imaginam o quanto, poder estar no Rio de Janeiro e, por ser brasileira, não ter que passar por barreiras linguísticas e culturais para poder me imergir tranquilamente nas idiossincrasias dessa cidade tão fascinante, quanto , amedrontadora. Mas, sendo ela, a metáfora do Brasil, acredito que quando tivermos capacidade de resolver as questões mais gritantes deste microcosmos aterrorisantemente sedutor é porque estaremos nos resolvendo enquanto País.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

PM e sem-terra discutem o futuro do Brasil em Sergipe

No mês de agosto, Aracaju, a capital do Sergipe foi palco de um inusitado encontro entre policiais militares e sem-terra. Ao invés de confronto, do usual empurra-empurra, cacetadas e da inevitável destruição de seus barracos, os sem-terra, inicialmente, desconfiados, depararam-se com uma tropa de policiais desarmados e atentos às palestras que assistiram, lado à lado, em um auditório da Universidade Federal do Sergipe (UFS), entre elas, a do dirigente do MST, João Pedro Stédile. Depois, almoçaram juntos no RU da Universidade e debateram sobre o futuro do Brasil, dividindo-se em quatro oficinas. O objetivo do encontro, segundo seu organizador, o Tenente-Coronel da PM, Luís FernandoAlmeida, era fazer com que ambos os grupos, no mínimo, “se conhecessem” para, a partir disso, pensarem em possibilidades de “novas formas de relacionamento, que tenham como foco o respeito mútuo e a busca da paz social”.
Esse encontro me fez voltar a maio de 1992, quando sem-terra e brigadianos, os policiais militares gaúchos, dividiram a platéia do Teatro da Reitoria da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) para assistir o Seminário “Violência, Segurança Pública e Cidadania”, em Porto Alegre. Na época, deu confusão.
Como repórter e editora do Jornal Sem Terra, assisti a bate-bocas dos oficiais militares com Hélio Bicudo, autor do projeto que previa a desmilitarização das polícias militares do país e a perguntas tais como: “Sabemos que o Movimento Sem Terra é uma estrutura bastante hierarquizada. Que lugar você ocupa nesta estrutura? Os chefes usam o anel preto e os subalternos usam o anel branco?”
Para agravar a surdez política na qual estes dois grupos se encontravam, os cerca de 50 “colonos do MST”, que dividiam a platéia com cerca de 300 oficiais da Brigada Militar, começaram a ser sistematicamente fotografados e filmados. O realizador do evento, o sociólogo José Vicente Tavares teve que tomar a palavra e solicitar que parassem com as filmagens.
Em 2007, em Sergipe, viu-se um outro país, refletindo as transformações políticas pelas quais o Brasil passou nos últimos anos.
Só um dos policiais da oficina que acompanhei declarou estar na PM porque gostava do militarismo. Mas mesmo ele começou sua fala comentando ter esperado em vão que o país “mudasse” com a eleições. Os demais policiais, mesmo enfatizando o gosto por sua função, declararam estarem na polícia por “estabilidade financeira”. Os sem-terra, por seu turno, também disseram estar no MST para ter a chance de ter algo que fosse deles nessa vida: um pedaço de terra. Todos, em suma, buscavam alguma espécie de “segurança” .
Com o andar da discussão, o grupo foi ficando mais à vontade e podia-se escutar dos policiais: “A briga não é entre nós e vocês, é entre nós e o sistema”. Eles até se perguntaram: “Quando um de nós prendeu um rico?”, “Como podemos mudar se somos manobrados por essa classe política que envergonha a Nação?”. Houve até um questionamento direto: “Como podemos construir uma unidade de classe para transformar o país?”.
Ao escutar essas declarações vindo de quem vieram, me pus a pensar onde esses policiais haviam desenvolvido essa percepção de sua sociedade e essa aparente simpatia pela luta dos sem-terra ? No “Jornal Nacional”? Na “Folha de S. Paulo”? Na “Veja”? Não, com certeza não. Lá, os sem-terra em geral são violentos, colocam a propriedade privada em perigo, ameaçam a Nação. Além disso, sofrem preconceitos nas comunidades onde vivem, onde muitas vezes são vistos como massa de manobra, baderneiros, vagabundos. “Não gostam de trabalhar por isso ficam embaixo daquelas lonas pretas!”.
De onde vem essa compreensão social desses brasileiros, em posições tão diversas, que também já não toleram mais um sistema social tão iníquo que condena à asfixia econômica ou à violência tantas famílias?
No cotidiano. No dia-a-dia das famílias das classes populares que geralmente vivem amontoadas em favelas. Para elas, cada metro quadrado ocupado por barraco é fruto de “invasões”. Neste caso, silenciosas, sem a estridência política das ocupações de terra do MST. Portanto, todo pobre brasileiro pode não admitir em alto e bom som, mas sabe que se não “invadir”, não vai ganhar nada nunca. Tem muito poucas chances de ter onde morar, onde plantar sem usar esse expediente. As “invasões”, sejamos bem claros, não são prerrogativas apenas dos pobres brasileiros. Há uma história de apropriação de terrenos de marinha por ricaços no litoral brasileiro, de grandes extensões de terra por grileiros e de nacos de terreno da prefeitura nas cidades grandes, onde algumas ruas e calçadas são fechadas por seus moradores.
No entanto, basta ser brasileiro oriundo de classes menos privilegiadas para se dar conta que na hora da porrada, o pau come do lado dos seus vizinhos. De seus parentes. E que esses, em geral, desesperados apelam para mil e uma saídas, às vezes, arriscadas, para continuar sobrevivendo dignamente.