segunda-feira, 3 de maio de 2010

A principal revolução do século XX e a maternidade

Desconfiava que ser mãe era bom. Afinal, geralmente toda mulher saudável gosta. Mesmo as que enfrentam duras condições de vida. Dá trabalho. Mas nenhuma cogita em voltar o filme para percorrer outro caminho. Os filhos, como são, como vieram parar em nossos colos, alteram completamente a percepção da vida. Ao se tornar mãe, toda mulher tem a oportunidade de se transportar para outra dimensão.
Por outro lado, achava espantoso pensar como a maior revolução do século XX, a das mulheres ocidentais, deixou a maternidade pelo caminho. Se bem que não, se formos observar do ponto de vista da demanda por direitos sociais, como saúde e educação, especialidades femininas.
O fato é que o debate atual sobre as diferenças entre os sexos, o chamado discurso pós-feminista, é produto do fato de que, depois de tantas conquistas na cena pública, as mulheres da atual geração passaram a buscar a maternidade conscientemente. A vantagem que é ser mãe não é é mais uma obrigação inescapável para uma mulher de vida sexual ativa, não exige casamento formal nem é necessário uma união com o pai, embora seja bom contar com eles... Além disso, independe de orientação sexual.
Foi uma memorável aula de Yvone Knibiller que me esclareceu o quanto o feminismo, não visto sob o prisma das lutas de fato, mas sob o prisma da ideologia da igualdade entre os sexos havia deixado a maternidade pelo caminho. Sobretudo para as leitoras de Simone de Bouvoir, para quem a maternidade simplesmente é o que igualava as mulheres aos animais, não produzindo maior transcendência.
Há pouco descobri um artigo acadêmico que fala do tal “maternalismo”, conceito usado por alguns historiadores para descrever lutas de mulheres que a partir do século XIX tiveram como ponto de partida demandas sociais vinculadas à maternidade. Foi uma surpresa saber que o pontapé inicial das algumas mobilizações de mulheres foi justamente a maternidade. Parece até que houve um Congresso Nacional das Mães nos Estados Unidos no século XIX. Ou seja, todos os movimentos feministas da primeira fase, portanto do século XIX e do início do século XX podiam ser classificados como “maternais”, já que a maternidade constituía a principal definição social das mulheres brancas, protestantes e da pequena burguesia norte-americana que deram início a esse movimento.
Para alguns historiadores esses movimentos eram conservadores, para outros revolucionários. O fato é que, embora desconsiderem provavelmente a questão das classes sociais, estes movimentos desembocam em uma compreensão sobre esta atividade altamente vinculada ao gênero feminino.
Não podemos esquecer que as operárias também apreciavam poder se consagrar a seus filhos. Muitos sindicatos de trabalhadores do século XIX lutavam contra a contratação de mulheres nas fábricas, influeciados por Proudhon e seu culto à mãe de família devotada.
Pessoalmente gosto de ver aquelas pessoas que gostam de “criar” crianças, e é mais comum ver mulheres assumindo estas tarefas, vindas da barriga dela ou não. E acho importante que algumas lutas tenham desembocado no reconhecimento do papel das mães como um “trabalho”, ou seja, tendo este valor, mesmo não sendo “pago”,monetariamente falando, pois isso favoreceu ao aumento da autonomia das mulheres no interior da instituição conjugal e sustentou direitos sociais que estão associados a papéis considerados femininos e, portanto, subalternos, de uma sociedade. Embora haja o risco de reforçar a ideologia patriarcal, é fato que muitas mulheres despertaram para lutas sociais porque gostariam apenas ter seus filhos com a traquilidade de contar com um bom atendimento público de saúde, creches, licenças-maternidades, horários justos de trabalho, educação pública de qualidade e moradia.. Eis o sonho que embalou muitas lutas sociais aparentemente insignificantes, por serem lutas micro, não pautadas para grandes transformações sociais, mas que deixaram valores perenes em sociedades, como a brasileira. Valores aos quais os próprios partidos conservadores hoje têm que se dizer partidários.
É por essa e outras razões que a luta das mulheres do século passado foi a que trouxe transformações mais perenes para o mundo. Tirando a mania dos fundamentalistas islâmicos, cuja suposta cultura resolveu retroceder neste assunto, os passos que foram dados adiante pelas mulheres ocidentais não voltaram atrás. Seu exemplo para mulheres de outras sociedades incomoda porque como toda e qualquer emancipação, ela destrona alguns senhores simbólicos e reais e redesenha profundamente o mundo social.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Cesar Battisti, Olga Benario e o STF

Há alguns meses atrás, quando Gilmar Mendes proferiu a decisão do STF sobre a deportação do Battisti, ou seja, que ele, enquanto presidente do STF, lavava as mãos jogando a batata quente do destino do ativista de extrema esquerda italiano para as mãos do presidente Lula, achei que, dada a polêmica que este caso havia gerado no país, a decisão seria rápida. Acompanhei meio atrasada os lances da polêmica, mas ficou claro que estava em jogo um caso que no fundo era para explicitar o tipo de polaridade política que vem permeando o Governo Lula.
Sim, porque só em um contexto de polaridade é que poderia sair uma sentença classificando de comuns os crimes de que Battisti é acusado na Itália, quando era ativista de extrema esquerda. O mais curioso foi ver comentários de gente batendo palma para esta decisão em blogs, como o de Reinaldo Azevedo. Quem não conhece, esse tal de Azevedo é colunista da revista “Veja” que, hoje em dia representa o partido mais azedo e estridentes contra Lula, PT e presidentes latino-americanos de esquerda, como Chaves e Evo Morales. Sem querer entrar no mérito das atuações destes presidentes, é fato que algumas matérias desta revista, publicada pela Editora Abril, referentes a essas figuras parecem tão panfletárias quanto qualquer jornaleco partidário de quinta.
Claro que, neste panorama, se destaca a figura de Mino Carta, que torce pela deportação de Battisti não por compartilhar da visão política desta turma, mas provavelmente pelo ressentimento que nutre com o estrago que fez o pessoal da extrema-esquerda italiana, como Battisti, ao panorama político possível da década de 70 na Itália, quando ocorreu um dos piores crimes desse tipo: o sequestro e o assassinato do político da Democracia Cristã italiana, Aldo Moro.
Mas, a meu ver, o pior neste caso particular, é a quantidade de gente que achava normal a pressão que o governo italiano do Berlusconi vem fazendo em cima do Brasil. Digamos que um país,como a Itália, que não entregou um criminoso de colarinho branco como o Cacciola, humilhando, a meu ver, o governo e a justiça brasileiros, não tem o menor direito de pedir reciprocidade da nossa parte, ainda mais quando se sabe que a condenação de Battisti foi à revelia e pode ter sido a saída que seu ex-companheiro delator encontrou de livrar-se de condenação maior.
Independente de todos essas questões, acho interessante explorar a similitude existente entre a traumática entrega de Olga Benário para os alemães em 1936 e a imputação hoje recorrente da responsabilidade do então presidente Getúlio Vargas nessa decisão. Esta memória histórica compartilhada me veio à tona quando o Gilmar Mendes decidiu responsabilizar Lula por qualquer decisão final referente ao destino de Battisti.
O livro de Fernando Morais aponta alguns dos juízes do STF responsáveis pela vergonhosa entrega de uma mulher grávida, judia e comunista ao governo nazista...mas um outro livro que li sobre a época aponta que o presidente do STF de então, o Gilmar Mendes da época era o Vicente Rao.
O que ninguém comenta é que provavelmente esta decisão do Supremo Tribunal Federal da época estava vinculada ao clima de opinião pós-Intentona, provavelmente histérico contra os comunistas após seu fracassado levante de 1935. Ao contrário de alguns ignorantes em história, não estávamos ainda na ditadura Vargas em 1936, portanto, as instituições que funcionavam na época tiveram liberdade de ação para decidir. Mas a pecha de culpa foi para Vargas que, efetivamente talvez pudesse ter feito algo para coibir tal decisão, mas não fez, agradando a Filinto Muller que, como sabemos era o chefe da polícia política da época e havia sido expulso da Coluna Prestes... ou seja, era um desafeto público do pai da criança que Olga trazia na barriga. Mas o que importa é que, na época a decisão final sobre a deportação foi mesmo do STF. Mas a responsabilidade histórica é atribuída ao então presidente Getúlio Vargas.
A meu ver hoje, embora não corra o risco de morrer em um campo de concentração, o fato de a decisão sobre o destino de Battisti ter sido entregue nas mãos de Lula contém o mesmo tipo de capciosa armadilha que caiu sobre Vargas sobre esse tema específico. Muitas pessoas, intelectuais até de peso, não tem meias palavras para chamar Getúlio de fascista tanto por esse caso, como pelo Estado Novo... como pela Carta del Lavoro, de Mussolinni, que inspirou as Leis trabalhistas que seu governo implantou no país.
Objetivamente, as pessoas esquecem que, após a implantação do Estado Novo, ele teve que enfrentar de arma na mão golpistas de tons nazistas e integralistas que, em 1938, invadiram o Palácio das Laranjeiras, onde então presidente vivia, ameaçando toda a sua família. Esta turma era formada pelos descontentes com o fato de que a instituição do Estado Novo colocou tanto a esquerda como a direita do tabuleiro político da época representada sobretudo pelos Integralistas, fora da lei.. Depois desse episódio, tendo se comprovado a participação de funcionários ligados à embaixada alemã no Brasil, Vargas foi o primeiro governo do Ocidente a expulsar um embaixador nazista do país, pouco depois de a Inglaterra e a França engolirem o sapo de ver Hitler anexar impunemente os Sudetos, parte da hoje República Checa, à Alemanha. Provavelmente, estes países achavam que aplacariam a fome de expansão nazista, tolerando isso, mas a atiçaram ainda mais.
Voltando ao caso que hoje envolve o presidente Lula, o que se imagina que pode vir a acontecer com Battisti se for enviado para a Itália? Executado ele não será, mas certamente, a responsabilidade por qualquer coisa que lhe aconteça no futuro será provavelmente imputada a Lula que, será considerado traidor dos direitos humanos pela mesma turma que estridentemente faz campanha para dá-lo de presente para o governo Berlusconi. Na verdade, a maioria dos antepassados políticos dessa turma são os mesmos que fizeram a estridente campanha pública contra os comunistas na década de 30, criando o clima de opinião que favoreceu a expulsão ilegal de Olga. É uma turma que possui uma ojeriza quase patológica contra a esquerda e seu grande representante político atual, como hoje em dia sabemos, é o jurista que até recentemente presidia o STF, Gilmar Mendes.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Carnaval 2010: o ensaio geral do caos olímpico de 2016?

Os cariocas em geral possuem fama de serem “exxxperrrtos”. No entanto, depois deste Carnaval de 2010, cheguei à conclusão que eles são talvez os cidadãos mais otários do Brasil.
Temos que esclarecer que esta situação vigora com a colaboração explícita dos verdadeiros “anestesiantes sociais” que são os meios de comunicação de massa.
Não pude curtir a cidade como foliã, e como moradora, durante o Carnaval, limitei-me a tentar exercer meu direito de ir e vir pela cidade, o que me deu oportunidade de ver o caos do transporte público que a assolava durante estes dias em que esteve lotada e repleta de blocos por todos os lados.
No entanto, a percepção e os transtornos do público não foram parar no jornais, TVs e rádios que trataram com normalidade ônibus lotados emperrados em engarrafamentos, estações de metrô fechadas e a via crucis dos passageiros que tinham que passar uma hora rezando até aparecer um táxi vazio disponível para sua viagem. Basta dar um singelo “Google” para ver que o caos do transporte urbano na cidade não recebeu atenção de nenhuma linha sequer.
Se um evento que faz parte do calendário normal do Rio leva a cidade ao caos, o que podemos esperar dos mega-eventos Copa do Mundo e Olimpíadas no futuro?
A julgar-se pelas manchetes dos jornais, o grande problema do Rio de Janeiro foram os “mijões”, que diante da opção de um banheiro para cada 600 pessoas, se aventuraram a fazer seu xixi na rua e foram sumariamente presos.
Obviamente, ninguém gosta de sentir cheiro de mijo pelas ruas, mas este era de longe um dos menores problemas deste carnaval. Aí é que entra a “otarice carioca”. Como uma cidade que ficou totalmente caótica desde o pré-carnaval pode acordar na quarta-feira de cinzas e julgar que agora tem uma prefeitura que se preze... que está instaurando a ordem... por prender gente mijando nas ruas enquanto o transporte público da cidade estava totalmente caótico e efetivamente atrapalhando o cotidiano tanto do folião como do morador que procurava viver sua cidade sem necessariamente cair no Carnaval.
A verdade é que esse clima é possível de parecer verossímil por que desde que assumiu a prefeitura, o senhor Eduardo Paes vem se notabilizando em “instaurar ordem” onde as coisas meio desordenadamente funcionavam.... e deixar de lado todos os problemas efetivamente estruturais desta cidade.
Como mencionou um taxista logo no início dessa gestão, quando um administrador começa seu governo atacando os mais humildes, os mais fracos, já sabemos onde isso vai parar. Ou seja, factóides contra o Rio informal (camelôs, barraquinhas de praia, mijões de ocasião) que amenizam a sede de alguma governabilidade sensata por parte de setores da população que vivem no Rio formal, enquanto a cidade, de fato, vive um tremendo caos que atinge, isso sim, toda a população e seus desavisados turistas.
E o pior, o Rio informal dos camelôs, barraqueiros e vendedores de praia, etc. em sua aparentemente caótica autogestão funcionava. Rendia uns trocados para os do andar debaixo e. fora alguns excessos, incomodava bem menos do que a falta de uma infra-estrutura urbana minimamente planejada, como é o que de fato ocorre no Rio de Janeiro desde sempre
Já a falta de notícia sobre as arbitrárias decisões de se fecharem estações de Metrô só pode ser considerada normal em uma cidade em que a mulher do governador, responsável pelo serviço, é advogada da companhia que recentemente recebeu um aumento da concessão da exploração da linha para “investir” no transporte. Sim, porque até então, quem investia era apenas o governo estadual... a concessionária tinha apenas que cuidar do serviço... coisa que como vemos nos últimos meses, não tem a menor competência. Mas isso não importa. Merecia tirar a sorte grande e ficar seus trinta anos sugando os lucros desta concessão. Minha curiosidade é ver em 2014 e 2016 como esta sorte grande vai ser vista pelo resto do mundo quando estes estiverem enfrentando caos instalado nesta cidade por conta de suas gangues que administram transporte público como um assunto de família.
A propósito, para completar, convém mencionar que a violência continua também a de sempre... Um casal de jovens turistas holandeses foi assaltado na estrada das Paineiras em seu segundo dia de visita ao Rio. Mesmo sem reagir, o rapaz foi baleado por um assaltante de 15 anos. No mesmo dia, o primeiro do Carnaval 2010, a delegacia de Santa Teresa estava lotada....adivinhe com quem? Os inadvertidos "mijões" deste Carnaval....como se realmente não houvesse nada mais importante para ocupar a polícia desta cidade.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

As associações de moradores e o Rio de Janeiro

Durante a década de 80, nos fins dos anos da ditadura, o Rio de Janeiro fervia com suas associações de moradores. Talvez tenha ocorrido aqui neste período o mesmo que ocorrera em Porto Alegre. Muitos militantes de esquerda, sem outra alternativa de militância segura, passaram para as lutas comunitárias. São as associações de moradores o que está na origem do hoje, graças ao Governo Fogaça, moribundo Orçamento Participativo de Porto Alegre. A verdade é que a Prefeitura do PT, recém-eleita em 1988 com a bandeira da "inversão de prioridades", diante da falta de caixa para colocar a promessa em ação, resolveu afixar em um caminhão placas enormes onde expunha, de forma ambulante,o minguado orçamento da prefeitura para as várias comunidades onde, então, aguerridas associações de moradores cobravam as novas prioridades do novo governo.
Depois de morar onze anos em São Paulo, onde não vi rastro nem vestígio de associação de moradores, me surpreendi que essa militância existia no Rio. Aterrisei em um bairro peculiar neste quesito, Santa Teresa, mas isso me fez buscar informações e descobrir que esta cidade compartilhou da mesma efervecência comunitária da década de 80. Não sei como foi que se deram os processos por aqui, mas é fato que eu vejo que esta cidade ainda guarda importantes associações e um tecido social organizado, o que não é pouco. Estas associações não estão só no asfalto, estão também nas favelas onde cumprem um papel fundamental, como os correios comunitários. E deve ser bem difícil manter uma associação nas favelas, obrigada a andar em um espaço delimitado por um Estado ausente e um movimento "armado". Isto certamente torna muito mais complicado manter lutas sociais. Mas é fato que a permanência desses movimentos no Rio indica que há muito mais potencialidades políticas auto-organizativas nessa cidade do que a gente imagina. Vide os "transportes alternativos" geralmente criados onde os serviços oficiais não funcionam.... Que o carioca tem grande talento auto-gestionário, isso sabemos, visto a capacidade com que em várias localidades dessa cidade o pessoal se organiza para fazer uma festa, seja ela, junina, bloco de carnaval... etc.
Mas esse savoir faire vai mais além...senão não existiriam essas associações ainda pulsantes nessa cidade. Ouso até dizer que um governo que quisesse ser realmente transformador deveria começar justamente potencializando essas energias organizativas e não as coibindo ou as comprando com clientelismo e favores de ocasião. Mas, por enquanto, isso é querer demais... Do jeito que assistimos na TV, nas ruas e mesmo nas lutas do meu bairro, tenho chegado à conclusão que o grande problema do Rio são suas supostas "autoridades", geralmente desqualificadas para os cargos que ocupam. Nem tanto por incapacidade técnica, mas geralmente corrompidas por conchavos de todos os tipos, que, geralmente de forma autoritária, jogam na vala comum de negociatas o bem público e lamentavelmente, com muita frequência, desrespeita a vida de seus concidadãos menos afortunados economicamente. Mas acho que o povo, o cidadão carioca, sabe muito bem do que ele precisa. Geralmente não tem acesso a canais para fazer essa vontade prevalecer. Geralmente é humilhado, quando não obrigado a se curvar para obter o que lhe é de direito. Mas a vida e a consciência política pulsam nessa cidade. Muitas vezes está dissimulada. Mas está aí, viva. Um dia, quem sabe, virá à luz.

50 anos sem Villa-Lobos e a devoção brasileira ao violão

Talvez não tenha sido acaso que o extenso e riquíssimo Festival Villa-Lobos deste ano, que celebra o cinquentenário da passagem de Villa-Lobos por esta terra, tenha escolhido um mestre do violão para tocar sua obra integral hoje, dia 17, data em que Villa efetivamente faleceu há 50 anos atrás. Ao contrário dos dois outros concertos que assisti do festival, que além da grande qualidade da programação tem preços populares, foi neste que vi a maior afluência de jovens. Provavelmente jovens amantes do violão...violonistas...em devoção a uma obra que realmente é um marco para este instrumento não só no Brasil como no mundo.
Durante o concerto, dei-me conta que a primeira parte do programa, a Suíte Brasileira, Choros nº1, e os 5 Prelúdios, de fases diversas... fazem parte do meu repertório musical há anos. E que saudades de escutar essa sonoridade coloridos e elegante. Sim porque a música de Villa é colorida. Infelizmente um ataque de tosse me impediu de assistr os 12 Estudos que ele compôs pensano em André Segóvia.... Uma tragédia para mim. Mas nos trechos em que retornava à sala, quando esta imbecilidade conspirativa do meu corpo amainava, pude perceber que nesses estudos talvez residam toda a base do violão moderno brasileiro... não só o clássico. Sou uma devota do violão, portanto, não entendo os meandros desse intrumento... Só fico no seu encantamento....E pude perceber que, sim, boa parte dos grandes violonistas e compositores brasileiros tiveram que passar horas estudando Villa-Lobos.E sem dúvida é um privilégio.
O que fica é que, dada a platéia, a tradição brasileira do violão continuará produzindo novos violonistas, compositores e sua devota tribo de seguidores encatados pela sonoridade graciosa e colorida deste mágico instrumento sempre presente nas rodas popuares, mas também imortalizado por grandes mestres como Villa-Lobos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Hotel Santa Teresa: mais uma do François

Sem pejo de não atender às reclamações de seus vizinhos de que maneirasse nos barulhos e festas semanais que faz em seu estabelecimento sem tratamento acústico, François Delort, o dono do Hotel Santa Teresa, resolveu apelar para um juiz para impedir que seus vizinhos fizessem uma ação barulhenta em protesto contra seu descaso com a boa vinhança.
É interessante pensar o que se passa na cabeça desse juiz. Pode fazer manifestação, mas desde que seja silenciosa.
Onde já se viu manifestação silenciosa?
E esse cidadão francês, autor da ação, parece jogar no lixo toda a história de "droit des hommes" tão cara a seu país. Afinal, direito a se manifestar faz parte de uma das cláusulas pétreas dessa magnífica regulação, tão cara às lutas sociais do século XIX, XX e XXI....Este direito continua sendo, de fato, um fator de disputa, dependendo do país, mas o curioso é estarmos em um país dito democrático onde um juiz pode se dar o direito de impedir uma manifestação pública.... ferindo a nossa Constituição....
Bom, digamos que Delort agora colocou sua batata para arder. A vizinhança já o via com enorme desconfiança depois que ele demoliu um dos prédios mais antigos do bairro, reconstruíndo-o com um gabarito maior, ou seja, ocupando muito mais área construída de seus terreno, ferindo a legislação e, ainda por cima, tapando a vista de seus vizinhos.
Conta-se que ele simplesmente não resolve esse problema do barulho porque seu sistema de ar condicionado não funciona bem. Ora, mande consertar! Para quem gastou uma banana para fazer a demolição e reconstrução do hotel, essa parte do ar condicionado e do tratamento acústico não poderia ser deixada como detalhe. A não ser que ele realmente, como de fato demonstra, não dê a mínima para a boa vizinhança. Seu negócio é manter relação com a Coligação de Favelas de Santa Teresa que selecionou para ele os 80 funcionários do Morro dos Prazeres que trabalham no hotel. É uma questão de aritmética. Enquanto a "representativa" Coligação de Favelas defende o direito de seus 80 funcionários, que se lixem os seus vizinhos, menos afeitos às "migalhas" de sua política de "boa ação social". Que fiquem eles aguentando os barulhos de seus clientes, transmitidos diretamente pelas janelas abertas de seu estabelecimento chique, onde um hamburguer custa R$ 90 reais.
Me dei conta que essa luta curiosa contra o Delort em pleno "Ano da França no Brasil" expressa bem como funciona a nossa sociedade atualmente. Os ricaços fazem alianças com os escroques estrangeiros para desfrutarem do que supostamente é "chique" no mundo, dão migalhas em forma de "projetos pontuais", estilo ONGs, para as classes populares, fazem o maior marketing disso (sim porque supostamente o Canal Plus francês está fazendo um documentário sobre as "boas ações do Delort") e a classe média esmagada e politizada(que é este o caso de que se trata), que fique de bico fechado....pare de incomodar!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O MST e a Cutrale

Já faz tempo que o MST deveria ter se dado conta de que menos pode ser mais. Em outras palavras. Seria melhor do que fazer ocupações com 250 famílias, juntar 20 bons militantes, que sabem direitinho o que estão fazendo, para empreender uma ação simbólicamente forte. Não precisa de muita gente para fazer isso. Basta ter imaginação. Esse problema de sempre "juntar pobre" e cada vez "mais pobre" é que nesse bolo vem de tudo. E geralmente a metade do acampamento não sabe direito o que está fazendo ali. Fora aqueles que querem se aproveitar da situação para tirar as suas lasquinhas. Depois não dá para reclamar de infiltrações, etc. É óbvio que o MST vai sempre estar sujeito a essas "cascas de banana". Tem que saber evitar. E ações no Estado de São Paulo tem um poder de repercussão grande. Tem que ser muito cuidadoso com isso.
Por outro lado, aplaudo todas as tentativas de denunciar grilagens do país e acho até que se o Estado brasileiro tivesse vontade política para fazer reforma agrária bastava verificar nos cartórios o que é terra com dono legítimo e o que é terra do Estado e já resolvia o assunto. Dizem que tem pelo menos três Mato Grossos em títulos, e deve ter o mesmo no Pará...
Mas o problema é que a tal da ação na área dos laranjais da Cutrale foi sim uma opção completamente infeliz.
Houve um problema de tempo. As imagens saíram em rede nacional na segunda e eu, que recebo mensagens de vários militantes do MST, só fui a saber por que diabos tinham destruído aqueles laranjais na quarta. Até então, fiquei achando que era ação de uma "quinta coluna" do MST.
Que diabos, em plena discussão sobre a aprovação dos índices de produtividade, uma semana depois da divulgação de dados do Censo Agrário tão amplamente favoráveis à agricultura familiar, por que fazer uma ação tão estúpida?
Sim, porque ninguém gosta de ver trabalho sendo destruído. Pode ser trabalho em terra grilada, mas é trabalho. Muita gente ficou horrorizada com a destruição da pesquisa de 20 anos da Aracruz.... e a pesquisadora chorando... Era trabalho. Trabalho tem que ser respeitado. Pode ser de empresa exploradora, não importa... Esse não é um bom alvo. E não era um bom momento.
E depois começaram a vir os textos em apoio à ação do MST. Em um deles, de autoria de Osvaldo Russo, ele denuncia o fato de a sociedade ter se escandalizado com a destruição dos laranjais, mas não costumar dar a mínima para os enormes números trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão, com a não aprovação de uma atualização dos índices de produtividade, que ainda são de 1975, e que hoje sofre renhida oposição da bancada do agronegócio, curiosamente sempre tão orgulhosa de seus feitos produtivistas..
O que tanto o MST e Russo esquecem é que estamos falando de uma sociedade que tolera a escravidão, a grilagem, enormes faixas de terras improdutivas, etc. E portanto, essas situações não escandalizam mesmo. É papel dos movimentos sociais questionar esses valores, essa orientação da sociedade para transformá-los... Mas tem que saber dialogar com essa sociedade. Convencê-la. E não vai ser destruindo trabalho que vão conseguir isso.
Agora, também não me venham com essa conversa de que "para mim, o MST acabou". Saída fácil. Obviamente o MST é um movimento incômodo, porque a reforma agrária é incômoda nesse país construído em cima da grilagem e do monopólio da terra. É facil dizer, bom, agora que eles fizeram essa enorme estupidez, melhor que sumam do mapa. É o que deixaria muitos aliviados.. para não ter que ver esse incômodo constante....que joga na cara desta sociedade louca para esquecer, que essa dívida social, sim, tem que ser resgatada. E viva o MST por sempre nos lembrar disso.