Já faz tempo que o MST deveria ter se dado conta de que menos pode ser mais. Em outras palavras. Seria melhor do que fazer ocupações com 250 famílias, juntar 20 bons militantes, que sabem direitinho o que estão fazendo, para empreender uma ação simbólicamente forte. Não precisa de muita gente para fazer isso. Basta ter imaginação. Esse problema de sempre "juntar pobre" e cada vez "mais pobre" é que nesse bolo vem de tudo. E geralmente a metade do acampamento não sabe direito o que está fazendo ali. Fora aqueles que querem se aproveitar da situação para tirar as suas lasquinhas. Depois não dá para reclamar de infiltrações, etc. É óbvio que o MST vai sempre estar sujeito a essas "cascas de banana". Tem que saber evitar. E ações no Estado de São Paulo tem um poder de repercussão grande. Tem que ser muito cuidadoso com isso.
Por outro lado, aplaudo todas as tentativas de denunciar grilagens do país e acho até que se o Estado brasileiro tivesse vontade política para fazer reforma agrária bastava verificar nos cartórios o que é terra com dono legítimo e o que é terra do Estado e já resolvia o assunto. Dizem que tem pelo menos três Mato Grossos em títulos, e deve ter o mesmo no Pará...
Mas o problema é que a tal da ação na área dos laranjais da Cutrale foi sim uma opção completamente infeliz.
Houve um problema de tempo. As imagens saíram em rede nacional na segunda e eu, que recebo mensagens de vários militantes do MST, só fui a saber por que diabos tinham destruído aqueles laranjais na quarta. Até então, fiquei achando que era ação de uma "quinta coluna" do MST.
Que diabos, em plena discussão sobre a aprovação dos índices de produtividade, uma semana depois da divulgação de dados do Censo Agrário tão amplamente favoráveis à agricultura familiar, por que fazer uma ação tão estúpida?
Sim, porque ninguém gosta de ver trabalho sendo destruído. Pode ser trabalho em terra grilada, mas é trabalho. Muita gente ficou horrorizada com a destruição da pesquisa de 20 anos da Aracruz.... e a pesquisadora chorando... Era trabalho. Trabalho tem que ser respeitado. Pode ser de empresa exploradora, não importa... Esse não é um bom alvo. E não era um bom momento.
E depois começaram a vir os textos em apoio à ação do MST. Em um deles, de autoria de Osvaldo Russo, ele denuncia o fato de a sociedade ter se escandalizado com a destruição dos laranjais, mas não costumar dar a mínima para os enormes números trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão, com a não aprovação de uma atualização dos índices de produtividade, que ainda são de 1975, e que hoje sofre renhida oposição da bancada do agronegócio, curiosamente sempre tão orgulhosa de seus feitos produtivistas..
O que tanto o MST e Russo esquecem é que estamos falando de uma sociedade que tolera a escravidão, a grilagem, enormes faixas de terras improdutivas, etc. E portanto, essas situações não escandalizam mesmo. É papel dos movimentos sociais questionar esses valores, essa orientação da sociedade para transformá-los... Mas tem que saber dialogar com essa sociedade. Convencê-la. E não vai ser destruindo trabalho que vão conseguir isso.
Agora, também não me venham com essa conversa de que "para mim, o MST acabou". Saída fácil. Obviamente o MST é um movimento incômodo, porque a reforma agrária é incômoda nesse país construído em cima da grilagem e do monopólio da terra. É facil dizer, bom, agora que eles fizeram essa enorme estupidez, melhor que sumam do mapa. É o que deixaria muitos aliviados.. para não ter que ver esse incômodo constante....que joga na cara desta sociedade louca para esquecer, que essa dívida social, sim, tem que ser resgatada. E viva o MST por sempre nos lembrar disso.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Tacanhice da mídia brasileira II
quarta-feira, 30 de setembro de 2009, 08:39 | Online
Reprodução da reprodução que o Estadão faz de matéria da Time sobre o Brasil...
Para uma das leitoras, a matéria da Times era ainda mais elogiosa... Isso confirma a hipótese de que fora a mídia brasileira, o resto do mundo aplaude o "abrigo" de Zelaya na embaixada brasileira em Tegucicalpa....
Para 'Time', Brasil é 'primeiro contrapeso real aos EUA no Ocidente'
Revista americana diz que Lula se tornou 'o mais efetivo intermediário entre Washington e a esquerda anti-EUA na região'.
- Uma reportagem publicada nesta quarta-feira na edição online da revista americana "Time" diz que, ao mediar a crise hondurenha, o Brasil se tornou "o primeiro contrapeso real" à influência americana "no hemisfério ocidental".
Considerando que o Brasil foi "trazido" para o coração do imbróglio pelos vizinhos, mais especificamente pela Venezuela do presidente Hugo Chávez, a revista diz que "Brasília se vê no tipo de centro das atenções diplomático do qual no passado procurou se afastar".
Entretanto, diz a "Time", o país "não deveria se surpreender" com o fato de ser chamado a assumir tal responsabilidade.
Para a publicação americana, "nos últimos anos, a potência sul-americana tem sido reconhecida como o primeiro contrapeso real aos EUA no hemisfério ocidental - e isto significa, pelo menos para outros países nas Américas, assumir um papel maior e mais pró-ativo em ajudar a resolver distúrbios políticos do Novo Mundo, como Honduras".
"Lula e Obama são colegas e almas gêmeas de centro-esquerda, mas quando Obama disse, no mês passado, que aqueles que questionam sua resolução em Honduras são hipócritas, porque são 'os mesmos que dizem que nós estamos sempre intervindo na América Latina'", recorda a reportagem, "ele estava incluindo o Brasil, que expressou sua preocupação em relação aos esforços dos Estados Unidos".
Diplomacia ativa
Citando a participação brasileira em crises regionais, como os conflitos diplomáticos envolvendo Colômbia e Venezuela, e a liderança das tropas do país no Haiti, a revista nota que a diplomacia brasileira é "dificilmente ociosa" na América Latina. "E Lula, um dos mais populares chefes de Estado do mundo, se tornou talvez o mais efetivo intermediário entre Washington e a ressurgente esquerda antiamericana latino-americana".
A reportagem discute a preferência da diplomacia brasileira por atuar nos bastidores, e sua autodefinição como sendo "decididamente não-intervencionista".
"Ao mesmo tempo, Lula está em uma cruzada para tornar o Brasil, que tem a quinta maior população mundial e a nona economia do mundo, um ator internacional sério", diz o texto.
"É difícil manter uma tradição não-intervencionista pristina com ambições como estas - e, cada vez, o hemisfério está dizendo ao Brasil que é um tanto ingênuo insistir que é possível fazer as duas coisas."
Para a "Times", "goste ou não, agora o Brasil está enfiado até o pescoço em Honduras, e o hemisfério está esperançoso de que isto signifique melhores prospectos para um acordo negociado entre Zelaya e os líderes golpistas".
"Porque acreditam que o golpe hondurenho envia um recado perigoso para as nascentes democracias da região, muitos analistas acham que ter o peso do Brasil jogado mais diretamente na situação pode ajudar as negociações." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
Reprodução da reprodução que o Estadão faz de matéria da Time sobre o Brasil...
Para uma das leitoras, a matéria da Times era ainda mais elogiosa... Isso confirma a hipótese de que fora a mídia brasileira, o resto do mundo aplaude o "abrigo" de Zelaya na embaixada brasileira em Tegucicalpa....
Para 'Time', Brasil é 'primeiro contrapeso real aos EUA no Ocidente'
Revista americana diz que Lula se tornou 'o mais efetivo intermediário entre Washington e a esquerda anti-EUA na região'.
- Uma reportagem publicada nesta quarta-feira na edição online da revista americana "Time" diz que, ao mediar a crise hondurenha, o Brasil se tornou "o primeiro contrapeso real" à influência americana "no hemisfério ocidental".
Considerando que o Brasil foi "trazido" para o coração do imbróglio pelos vizinhos, mais especificamente pela Venezuela do presidente Hugo Chávez, a revista diz que "Brasília se vê no tipo de centro das atenções diplomático do qual no passado procurou se afastar".
Entretanto, diz a "Time", o país "não deveria se surpreender" com o fato de ser chamado a assumir tal responsabilidade.
Para a publicação americana, "nos últimos anos, a potência sul-americana tem sido reconhecida como o primeiro contrapeso real aos EUA no hemisfério ocidental - e isto significa, pelo menos para outros países nas Américas, assumir um papel maior e mais pró-ativo em ajudar a resolver distúrbios políticos do Novo Mundo, como Honduras".
"Lula e Obama são colegas e almas gêmeas de centro-esquerda, mas quando Obama disse, no mês passado, que aqueles que questionam sua resolução em Honduras são hipócritas, porque são 'os mesmos que dizem que nós estamos sempre intervindo na América Latina'", recorda a reportagem, "ele estava incluindo o Brasil, que expressou sua preocupação em relação aos esforços dos Estados Unidos".
Diplomacia ativa
Citando a participação brasileira em crises regionais, como os conflitos diplomáticos envolvendo Colômbia e Venezuela, e a liderança das tropas do país no Haiti, a revista nota que a diplomacia brasileira é "dificilmente ociosa" na América Latina. "E Lula, um dos mais populares chefes de Estado do mundo, se tornou talvez o mais efetivo intermediário entre Washington e a ressurgente esquerda antiamericana latino-americana".
A reportagem discute a preferência da diplomacia brasileira por atuar nos bastidores, e sua autodefinição como sendo "decididamente não-intervencionista".
"Ao mesmo tempo, Lula está em uma cruzada para tornar o Brasil, que tem a quinta maior população mundial e a nona economia do mundo, um ator internacional sério", diz o texto.
"É difícil manter uma tradição não-intervencionista pristina com ambições como estas - e, cada vez, o hemisfério está dizendo ao Brasil que é um tanto ingênuo insistir que é possível fazer as duas coisas."
Para a "Times", "goste ou não, agora o Brasil está enfiado até o pescoço em Honduras, e o hemisfério está esperançoso de que isto signifique melhores prospectos para um acordo negociado entre Zelaya e os líderes golpistas".
"Porque acreditam que o golpe hondurenho envia um recado perigoso para as nascentes democracias da região, muitos analistas acham que ter o peso do Brasil jogado mais diretamente na situação pode ajudar as negociações." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Honduras e a tacanhice da mídia brasileira
Talvez não tenha surgido caso tão emblemático da tacanhice da mídia brasileira do que a cobertura que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) está dando para o caso de Zelaya, hoje abrigado na Embaixada Brasileira localizada na capital do país para o qual foi legitimamente eleito presidente. Pretendendo uma suposta objetividade , acabei de ver a jornalista da Record entrevistando, ou melhor, metralhando o chanceler Celso Amorim sobre a "intervenção" do governo brasileiro nos assuntos internos de Hondura.
A mulher chegava a estar nervosa. Mal disfarçando uma certa raiva expressa nas perguntas que fazia, obrigou Amorim repetir mais de uma vez que, para o Brasil e toda a comunidade internacional, o presidente legítimo de Honduras era Zelaya, o que justificava o fato de a Embaxada Brasileira em Tegucicalpa ter aberto as portas para abrigá-lo. A insistência da jornalista em afirmar os pontos de vista dos que indisfarçavelmente consideram que o governo de Micheletti tem algum traço de legitimidade acabou fazendo Amorim dar a entender que esse tipo de questão só a mídia brasileira vinha colocando.
Eis um exemplo de como o rapto do horizonte social é feito na sociedade brasileira por uma mídia tacanha que já há algumas décadas patrocina golpes de formas variadas.
Mas poucas vezes a sociedade consegue se dar conta disso. São poucos os momentos que eles se auto-denunciam com tanta veemência. É só porque a comunidade internacional está do lado do Brasil que isso fica evidente.
Enquanto não houver "pluralismo regulado" na mídia brasileira não se pode falar que existe liberdade de imprensa. Segundo a definição de John Thompson, trata-se do estabelecimento de uma estrutura institucional que abriga e garante a existência de uma pluralidade de independentes organizações de mídia. É um princípio que leva a sério a tradicional ênfase liberal na liberdade de expressão e na importância de sustentar as instituições de mídia independentemente do poder do estado. Mas é um princípio que também reconhece que o mercado deixado a si mesmo não pode garantir necessariamente as condições de liberdade de expressão e promover a diversidade e o pluralismo na esfera da comunicação.
"O princípio sugere a descentralização dos recursos nas indústrias da mídia: a tendência para uma crescente concentração de recursos deveria ser controlada e se deveriam criar condições tanto quanto possíveis, para o crescimento de independentes organizações de mídia. Isto exige não somente uma legislação restritiva – isto é, que limite as fusões e outros tipos de cartéis entre as indústrias da mídia – mas também uma legislação que crie condições favoráveis para o desenvolvimento de organizações da mídia que não façam parte dos grandes conglomerados já existentes.
A intervenção legislativa nas indústrias da mídia deveria ser vista não comente como meio de truncar o excessivo poder dos grandes conglomerados, mas também como meio de facilitar o desenvolvimento de novos centros de poder simbólico fora da esfera de controle dos conglomerados e de suas redes de produção e intercâmbio".
Enquanto a mídia brasileira for propriedade de umas 10 famílias com interesses altamente vinculados aos grupos economica e politicamente dominantes, aspectos da realidade brasileira e do nosso horizonte social simplesmente não irão fazer parte do dia a dia da população e não teremos como amadurecer como sociedade, discutindo os problemas que realmente interessam. Vamos simplesmente continuarmos "presas" dos golpes simbólicos aprontados pelos funcionários dessas organizações.
A mulher chegava a estar nervosa. Mal disfarçando uma certa raiva expressa nas perguntas que fazia, obrigou Amorim repetir mais de uma vez que, para o Brasil e toda a comunidade internacional, o presidente legítimo de Honduras era Zelaya, o que justificava o fato de a Embaxada Brasileira em Tegucicalpa ter aberto as portas para abrigá-lo. A insistência da jornalista em afirmar os pontos de vista dos que indisfarçavelmente consideram que o governo de Micheletti tem algum traço de legitimidade acabou fazendo Amorim dar a entender que esse tipo de questão só a mídia brasileira vinha colocando.
Eis um exemplo de como o rapto do horizonte social é feito na sociedade brasileira por uma mídia tacanha que já há algumas décadas patrocina golpes de formas variadas.
Mas poucas vezes a sociedade consegue se dar conta disso. São poucos os momentos que eles se auto-denunciam com tanta veemência. É só porque a comunidade internacional está do lado do Brasil que isso fica evidente.
Enquanto não houver "pluralismo regulado" na mídia brasileira não se pode falar que existe liberdade de imprensa. Segundo a definição de John Thompson, trata-se do estabelecimento de uma estrutura institucional que abriga e garante a existência de uma pluralidade de independentes organizações de mídia. É um princípio que leva a sério a tradicional ênfase liberal na liberdade de expressão e na importância de sustentar as instituições de mídia independentemente do poder do estado. Mas é um princípio que também reconhece que o mercado deixado a si mesmo não pode garantir necessariamente as condições de liberdade de expressão e promover a diversidade e o pluralismo na esfera da comunicação.
"O princípio sugere a descentralização dos recursos nas indústrias da mídia: a tendência para uma crescente concentração de recursos deveria ser controlada e se deveriam criar condições tanto quanto possíveis, para o crescimento de independentes organizações de mídia. Isto exige não somente uma legislação restritiva – isto é, que limite as fusões e outros tipos de cartéis entre as indústrias da mídia – mas também uma legislação que crie condições favoráveis para o desenvolvimento de organizações da mídia que não façam parte dos grandes conglomerados já existentes.
A intervenção legislativa nas indústrias da mídia deveria ser vista não comente como meio de truncar o excessivo poder dos grandes conglomerados, mas também como meio de facilitar o desenvolvimento de novos centros de poder simbólico fora da esfera de controle dos conglomerados e de suas redes de produção e intercâmbio".
Enquanto a mídia brasileira for propriedade de umas 10 famílias com interesses altamente vinculados aos grupos economica e politicamente dominantes, aspectos da realidade brasileira e do nosso horizonte social simplesmente não irão fazer parte do dia a dia da população e não teremos como amadurecer como sociedade, discutindo os problemas que realmente interessam. Vamos simplesmente continuarmos "presas" dos golpes simbólicos aprontados pelos funcionários dessas organizações.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Bonde fora dos trilhos:Justiça Estadual e Federal dão ganho de causa à AMAST duas vezes
Justiça dá ganho de causa para a Amast no Ministério Público e na Justiça Federal
Em menos de uma semana, dois processos promovidos pela Amast (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa), um na Justiça Federal e outro no Ministério Público Estadual, tiveram decisões favoráveis para as demandas da Amast. E isso sem considerar a decisão do TCE (Tribunal de Contas do Estado) que declarou ilegal o contrato da Central, empresa estadual que administra o bonde, com a T-Trans, empresa privada contratada para transformar os bondes em VLT(Veículo Leve sobre Trilhos), que na verdade é um trem, não um bonde.
No dia 20 de agosto, a Justiça Federal determinou a imediata paralisação da circulação de VLTs “Franksteins” e de seus “testes” com a população do bairro e os turistas, até que as partes envolvidas: a a Central, a T-Trans, apresentem o projeto de modernização, e o Inepac (órgão estadual por onde foi tombado o bonde em 1988) e o Iphan (responsável pelo tombamento dos Arcos da Lapa) se manifestem sobre o atendimento à legislação que rege o tombamento dos bondes, em função de eventuais danos causados pelos novos bondes, mais pesados do que os tradicionais nos Arcos da Lapa. Já 3ª Vara de Fazenda Pública do Estado do Rio, em atendimento à ação pública movida pela Amast desde 2004, determinou em 24 de agosto, que o governo estadual pague indenização por desrespeitar o tombamento no processo de modificação dos bondes. A sentença ainda proíbe que se continuem fazendo intervenções irregulares nos bondes para transformá-los em VLTs e ordena a restauração dos bondes nos moldes tradicionais em 60 dias e, da oficina, em 120 dias, incluindo a recuperação da rede aérea, da vida permanente e do gradil dos Arcos da Lapa, sobe pena de multa diária de R$ 50 mil. Ela determina também a reforma das estações Carioca e Curvelo.
É pena que tenha que ter havido a morte da professora Andrea de Jesus Resende, a jovem de 28 anos, morta no acidente ocorrido no domingo, dia 16/08, para que essas decisões judiciais tenham sido tomadas. Mas estas sentenças demonstram a correção das denúncias, das mobilizações, dos abaixo-assinados constantes realizados pelos moradores e amigos de Santa Teresa com referência ao uso dado pelo governo estadual para os 24 milhões obtidos do Banco Mundial para fazer uma reforma completa do sistema de bondes do bairro, patrimônio público do povo do Rio de Janeiro.
Ou seja, as alegações do governo estadual que os VLTs foram tirados dos trilhos até que se organize o trânsito de Santa Teresa é falsa. O governo estadual está obedecendo a determinações judiciais que condenam a reforma insegura e onerosa dos bondes promovida pelo governo estadual. É também falso a recorrente alegação do Secretário Júlio Lopes e de seu subordinado Fabio Tepedino de que não são mais fabricadas as peças dos bondes antigos. Há vários fornecedores de peças para o bonde. Um deles até alegou para moradores do bairro que “adoraria ser o único”. Trata-se de peças de fácil fabricação. Basta ter um torno para produzi-las.
A AMAST AGORA EXIGE QUE O GOVERNO ESTADUAL CUMPRA EMERGENCIALMENTE COM AS SENTEÇAS JUDICIAIS PROFERIDAS PELA JUSTIÇA REAPARELHANDO A OFICINA E REFORMANDO OS QUATRO BONDES TRADICIONAIS QUE ESTÃO PARADOS NA GARAGEM.
Em menos de uma semana, dois processos promovidos pela Amast (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa), um na Justiça Federal e outro no Ministério Público Estadual, tiveram decisões favoráveis para as demandas da Amast. E isso sem considerar a decisão do TCE (Tribunal de Contas do Estado) que declarou ilegal o contrato da Central, empresa estadual que administra o bonde, com a T-Trans, empresa privada contratada para transformar os bondes em VLT(Veículo Leve sobre Trilhos), que na verdade é um trem, não um bonde.
No dia 20 de agosto, a Justiça Federal determinou a imediata paralisação da circulação de VLTs “Franksteins” e de seus “testes” com a população do bairro e os turistas, até que as partes envolvidas: a a Central, a T-Trans, apresentem o projeto de modernização, e o Inepac (órgão estadual por onde foi tombado o bonde em 1988) e o Iphan (responsável pelo tombamento dos Arcos da Lapa) se manifestem sobre o atendimento à legislação que rege o tombamento dos bondes, em função de eventuais danos causados pelos novos bondes, mais pesados do que os tradicionais nos Arcos da Lapa. Já 3ª Vara de Fazenda Pública do Estado do Rio, em atendimento à ação pública movida pela Amast desde 2004, determinou em 24 de agosto, que o governo estadual pague indenização por desrespeitar o tombamento no processo de modificação dos bondes. A sentença ainda proíbe que se continuem fazendo intervenções irregulares nos bondes para transformá-los em VLTs e ordena a restauração dos bondes nos moldes tradicionais em 60 dias e, da oficina, em 120 dias, incluindo a recuperação da rede aérea, da vida permanente e do gradil dos Arcos da Lapa, sobe pena de multa diária de R$ 50 mil. Ela determina também a reforma das estações Carioca e Curvelo.
É pena que tenha que ter havido a morte da professora Andrea de Jesus Resende, a jovem de 28 anos, morta no acidente ocorrido no domingo, dia 16/08, para que essas decisões judiciais tenham sido tomadas. Mas estas sentenças demonstram a correção das denúncias, das mobilizações, dos abaixo-assinados constantes realizados pelos moradores e amigos de Santa Teresa com referência ao uso dado pelo governo estadual para os 24 milhões obtidos do Banco Mundial para fazer uma reforma completa do sistema de bondes do bairro, patrimônio público do povo do Rio de Janeiro.
Ou seja, as alegações do governo estadual que os VLTs foram tirados dos trilhos até que se organize o trânsito de Santa Teresa é falsa. O governo estadual está obedecendo a determinações judiciais que condenam a reforma insegura e onerosa dos bondes promovida pelo governo estadual. É também falso a recorrente alegação do Secretário Júlio Lopes e de seu subordinado Fabio Tepedino de que não são mais fabricadas as peças dos bondes antigos. Há vários fornecedores de peças para o bonde. Um deles até alegou para moradores do bairro que “adoraria ser o único”. Trata-se de peças de fácil fabricação. Basta ter um torno para produzi-las.
A AMAST AGORA EXIGE QUE O GOVERNO ESTADUAL CUMPRA EMERGENCIALMENTE COM AS SENTEÇAS JUDICIAIS PROFERIDAS PELA JUSTIÇA REAPARELHANDO A OFICINA E REFORMANDO OS QUATRO BONDES TRADICIONAIS QUE ESTÃO PARADOS NA GARAGEM.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Cinematografia indígena e os debates sobre o Brasil
Neste último domingo, dia 12 de julho se encerrou a mostra audiovisual "Primeiros Povos", no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal no Rio. O filme de encerramento foi um belíssimo documentário sobre Mário Juruna, o único deputado federal indígena que o Brasil elegeu até hoje, eleito pelos cariocas, ainda durante a ditadura.
Durante os 15 dias em que fiquei sabendo por acaso da mostra, procurei me programar para assisti-la e fui brindada por filmes belíssimos. Documentários feitos por brancos, por indígenas. Filmes de ficção, baseados em fatos reais....
Na última sessão, somente cerca de dez pessoas assistiam ao filme sobre Juruna, de Armando Lacerda, jornalista que fez questão de abrir a palavra para perguntas da platéia.
Estabeleceu-se um diálogo rico e revelador. Alguns espectadores estavam inconformados com a divulgação tacanha de uma mostra tão importante como essa. Uma francesa criticou as pouquíssimas páginas de livros escolares dedicadas aos povos indígenas no Brasil.
Sem entrevista com Juruna, que já andava muito doente com a diabetes que lhe levou embora, a memória deste grande personagem brasileiro é lembrada neste filme por seus parentes.Seu pai, seu filho, primos. A fotografia é belíssima. Os rostos filmados com textura. Os vincos. As cores das pinturas. As expressões dos xavantes. Chegamos à conclusão que uanto mais isoladas as aldeias, mais vida natural, mais os indígenas são saudáveis, belos, livres, dignos.
Mais perto da civilização branca, mais macarrão e, portanto, epidemia de diabetes.
O pai de Juruna, ainda vivo, mantém-se como seus ancestrais. É crítico de quem se aproxima muito da sedutora cultura dos brancos. E é saudável. Forte.
Mas como as imagens dos parentes têm como pano de fundo os discursos de Juruna na Câmara Federal, um dos espectadores fez a pergunta cabal: cadê as falas do Juruna? como podemos ter acesso a elas? Por que não usou mais?
Pois bem, o diretor explicou que dois picaretas contumazes da nossa Câmara Federal faziam questão de discordar do que Juruna falava e ele, sem experiência, não pedia para publicar. Resultado: pouquíssimas falas do nosso único deputado indígena foram publicadas nos Anais do Congresso Nacional! Elas estão registradas, mas não estão publicadas!!!!
Pelo que entendi, para ter acesso a elas, as coisas não são portanto, fáceis, como seriam se todas os seus discursos tivessem sido publicados.
Ou seja, os dois "nobres" deputados, um de nome japonês, que infelizmente não guardei, faziam questão de impedir isso. Manobras regimentais para apagar com uma memória, com a presença do Juruna naquela "Casa". Isso me fez lembrar as criminosas manobras perpetradas pelo "Centrão" durante a Constituinte de 1988 para enterrar a reforma agrária. A coisa foi bem pesada e está bem relatada em livro do saudoso José Gomes da Silva. É de deixar os cabelos e pé. No caso da reforma agrária, os caras do Centrão nem mediram esforços: feriram o regimento e mandaram ver.... passando por cima de figuras que tentaram segurar as pontas, como o Severo Gomes, e sobretudo, da vontade popular que na época havia conseguido 1 milhão de assinaturas para enfim dividir os latifúndios do Brasil...
Mas é isso, a sina dos povos indígenas, a sina dos posseiros, dos sem-terra e dos quilombolas. Eles sempre tentam de qualquer jeito apagar de alguma maneira a memória e com a visibilidade dessas demandas.
Filmes como o "Serra da Desordem", "Terra Vermelha", retratam bem o outro lado os interessados nesse silenciamento: fazendeiros truculentos, criminosos. Um Estado frágil para fazer valer os direitos desses povos que são de fato os verdadeiros brasileiros de quatro costados.
No fim das contas, toda a questão da terra no Brasil passa pelo reconhecimento do direito ancestral de posse, de todos esses povos. Mesmo os sem-terra, que originalmente entram em uma terra improdutiva, geralmente tiveram seus ancestrais, seus parentes expulsos, seja economicamente ou à bala, de suas roças há algum tempo atrás.
O monopólio da terra no Brasil é usualmente fruto de crimes de grilagem. Isso rola no país desde a fatídica Lei de Terras de 1850. O problema é que quem fez o grilo já não está mais na terra, passou ela adiante, e o atual dono apresenta um "papel" provando sua propriedade.
Independente do papel, é é a posse que deveria valer. Em todos os casos. E, como em muitos países europeus,deveria haver limite para o tamanho das propriedades para que todos, literalmente todos os brasileiros, tivessem direito de ter um naco de terra para fazer dela o que bem entender, desde que respeitando a legislação ambiental, trabalhista e a função social da propriedade....
O fato de uma mostra como essa não ter tido repercussão e filmes como o "Juruna, o espírito da floresta", "Serra da Desordem" e "Terra Vermelha" não terem sido objeto de debates públicos intensos, quando foram lançados, até mesmo por suas qualidades estéticas, demonstra que a permanência de uma estrutura fundiária injusta no Brasil é produto do fato de que seus jornalistas, pensadores e intelectuais, os que produzem os debates públicos, não usam seus espaços de expressão para debater filmes como esses. Cultura é debate. Perto dos filmes anódinos que o Brasil vem lançando recentemente, podemos considerar que o pano de fundo de toda a tragédia agrária brasileira é a ignorância de setores influentes desta sociedade. E essa ignorância provavelmente é produzida conscientemente pelos grupos interessados de sempre na manutenção desse silenciamento e dessa ordem social injusta, tanto é que, lá pelos idos da ditadura, se organizaram para que as falas do Juruna não fossem devidamente publicadas nos Anais do Congresso Nacional.
Durante os 15 dias em que fiquei sabendo por acaso da mostra, procurei me programar para assisti-la e fui brindada por filmes belíssimos. Documentários feitos por brancos, por indígenas. Filmes de ficção, baseados em fatos reais....
Na última sessão, somente cerca de dez pessoas assistiam ao filme sobre Juruna, de Armando Lacerda, jornalista que fez questão de abrir a palavra para perguntas da platéia.
Estabeleceu-se um diálogo rico e revelador. Alguns espectadores estavam inconformados com a divulgação tacanha de uma mostra tão importante como essa. Uma francesa criticou as pouquíssimas páginas de livros escolares dedicadas aos povos indígenas no Brasil.
Sem entrevista com Juruna, que já andava muito doente com a diabetes que lhe levou embora, a memória deste grande personagem brasileiro é lembrada neste filme por seus parentes.Seu pai, seu filho, primos. A fotografia é belíssima. Os rostos filmados com textura. Os vincos. As cores das pinturas. As expressões dos xavantes. Chegamos à conclusão que uanto mais isoladas as aldeias, mais vida natural, mais os indígenas são saudáveis, belos, livres, dignos.
Mais perto da civilização branca, mais macarrão e, portanto, epidemia de diabetes.
O pai de Juruna, ainda vivo, mantém-se como seus ancestrais. É crítico de quem se aproxima muito da sedutora cultura dos brancos. E é saudável. Forte.
Mas como as imagens dos parentes têm como pano de fundo os discursos de Juruna na Câmara Federal, um dos espectadores fez a pergunta cabal: cadê as falas do Juruna? como podemos ter acesso a elas? Por que não usou mais?
Pois bem, o diretor explicou que dois picaretas contumazes da nossa Câmara Federal faziam questão de discordar do que Juruna falava e ele, sem experiência, não pedia para publicar. Resultado: pouquíssimas falas do nosso único deputado indígena foram publicadas nos Anais do Congresso Nacional! Elas estão registradas, mas não estão publicadas!!!!
Pelo que entendi, para ter acesso a elas, as coisas não são portanto, fáceis, como seriam se todas os seus discursos tivessem sido publicados.
Ou seja, os dois "nobres" deputados, um de nome japonês, que infelizmente não guardei, faziam questão de impedir isso. Manobras regimentais para apagar com uma memória, com a presença do Juruna naquela "Casa". Isso me fez lembrar as criminosas manobras perpetradas pelo "Centrão" durante a Constituinte de 1988 para enterrar a reforma agrária. A coisa foi bem pesada e está bem relatada em livro do saudoso José Gomes da Silva. É de deixar os cabelos e pé. No caso da reforma agrária, os caras do Centrão nem mediram esforços: feriram o regimento e mandaram ver.... passando por cima de figuras que tentaram segurar as pontas, como o Severo Gomes, e sobretudo, da vontade popular que na época havia conseguido 1 milhão de assinaturas para enfim dividir os latifúndios do Brasil...
Mas é isso, a sina dos povos indígenas, a sina dos posseiros, dos sem-terra e dos quilombolas. Eles sempre tentam de qualquer jeito apagar de alguma maneira a memória e com a visibilidade dessas demandas.
Filmes como o "Serra da Desordem", "Terra Vermelha", retratam bem o outro lado os interessados nesse silenciamento: fazendeiros truculentos, criminosos. Um Estado frágil para fazer valer os direitos desses povos que são de fato os verdadeiros brasileiros de quatro costados.
No fim das contas, toda a questão da terra no Brasil passa pelo reconhecimento do direito ancestral de posse, de todos esses povos. Mesmo os sem-terra, que originalmente entram em uma terra improdutiva, geralmente tiveram seus ancestrais, seus parentes expulsos, seja economicamente ou à bala, de suas roças há algum tempo atrás.
O monopólio da terra no Brasil é usualmente fruto de crimes de grilagem. Isso rola no país desde a fatídica Lei de Terras de 1850. O problema é que quem fez o grilo já não está mais na terra, passou ela adiante, e o atual dono apresenta um "papel" provando sua propriedade.
Independente do papel, é é a posse que deveria valer. Em todos os casos. E, como em muitos países europeus,deveria haver limite para o tamanho das propriedades para que todos, literalmente todos os brasileiros, tivessem direito de ter um naco de terra para fazer dela o que bem entender, desde que respeitando a legislação ambiental, trabalhista e a função social da propriedade....
O fato de uma mostra como essa não ter tido repercussão e filmes como o "Juruna, o espírito da floresta", "Serra da Desordem" e "Terra Vermelha" não terem sido objeto de debates públicos intensos, quando foram lançados, até mesmo por suas qualidades estéticas, demonstra que a permanência de uma estrutura fundiária injusta no Brasil é produto do fato de que seus jornalistas, pensadores e intelectuais, os que produzem os debates públicos, não usam seus espaços de expressão para debater filmes como esses. Cultura é debate. Perto dos filmes anódinos que o Brasil vem lançando recentemente, podemos considerar que o pano de fundo de toda a tragédia agrária brasileira é a ignorância de setores influentes desta sociedade. E essa ignorância provavelmente é produzida conscientemente pelos grupos interessados de sempre na manutenção desse silenciamento e dessa ordem social injusta, tanto é que, lá pelos idos da ditadura, se organizaram para que as falas do Juruna não fossem devidamente publicadas nos Anais do Congresso Nacional.
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