segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Lambendo as feridas: A amnésia da reforma agrária





Lambendo as feridas:
A amnésia  da reforma agrária
Por Débora F. Lerrer
Certo domingo de 2017, enquanto passava pela TV ligada do porteiro, assisti Silvio Santo perguntando para dois participantes de seu programa dominical o que era reforma agrária. Era uma questão  de múltipla escolha e pude constatar o aperto daquelas pessoas que iam perder a chance de faturar algum por que simplesmente não faziam ideia de que reforma agrária era reforma  da “terra”.
Corroborando a marginalização desta temática no imaginário popular, o  site “De olho nos Ruralistas” , ao analisar os programas dos candidatos à Presidência da República de 2018, constatou que somente o de  João Goulart Filho apresentava meta  de assentados da reforma agrária, prometendo destinar terra a 400 mil famílias em um ano.  Em outra matéria comparativa dos programas de governo,  o mesmo site afirmava que  Boulos e Haddad pelo menos falavam em expandir a reforma agrária e "metas específicas para a população camponesa”.
Como a população esqueceu o que era reforma agrária? Como candidatos, mesmo de esquerda, acham irrelevante apresentar metas para a reforma agrária em um país onde a concentração fundiária aumentou nos últimos 10 anos? De acordo com o último Censo Agropecuário, se antes, 1% dos proprietários de terra detinham 45% do território, hoje eles detêm 47,5%.  
O que o que a ditadura militar não conseguiu em seus 20 anos, que foi apagar a reforma agrária do horizonte popular, o governo do PT  conseguiu  em 13.  
Foi só a ditadura militar começar a dar alguma “abertura”, que sem-terras começaram a se organizar e lutar, não por acaso, por terras que tinha sido desapropriadas por Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul,  e Roberto da Silveira, no Rio de Janeiro, no pré-64, e devolvidas para seus supostos proprietários pelo regime exceção que assumiu o poder justamente para evitar a desapropriação de terras ao longo das rodovias federais pelo presidente deposto, João Goulart.
Já Temer, que assumiu a agenda dos ruralistas, foi tratar imediatamente de destruir os vestígios de avanços que tinham sido duramente conquistados nestes anos, acabando, logo de cara,  com o Ministério do Desenvolvimento Agrário para transformá-lo em uma secretaria subordinada à Presidência da República.
Obviamente, a política do silêncio sobre a reforma agrária, banida do debate público nos 13 anos em que o principal partido de esquerda governou o país, teve com contraponto o fortalecimento dos atores envolvidos no que passou a ser conhecido como “agronegócio” e a complacência dos que se organizam em torno de sindicatos e movimentos sociais em torno da expressão agricultura familiar.
Como não podemos jogar o bebê junto com a água suja do banho, é importante frisar que houve sim grandes avanços em termos de políticas públicas para agricultura familiar durante os governos petistas. Houve espaço de interlocução com estes atores que até então não tinham espaço no Estado como os ruralistas, extremamente favorecidos pela política agrícola e agrária da ditadura militar. Estes “novos” atores  acabaram influenciando a construção de políticas públicas muito inovadoras que facilitaram a inserção da agricultura familiar nos mercados institucionais tanto da merenda escolar, como em estoques reguladores e em doações promovidas pela Conab a instituições de assistência social. 
O primeiro programa, a partir de uma lei de 2009, passou a exigir que pelo menos 30% dos alimentos da merenda escolar distribuídos pelos municípios a partir de verbas oriundas do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) fossem oriundos da agricultura familiar.  Em um único assentamento de reforma agrária, o Celso Daniel, localizado no município de Macaé, interior do Rio de Janeiro, a produção de apenas 20% [1] (41 de 200) das famílias dos assentados tinha condições de vender,  já em 2014, 80%  dos 30% mínimos exigidos pela lei, sendo que se tratavam de 35 tipos diferentes de produtos frescos e sem agrotóxicos . Imagina se todos os latifúndios, cujas terras desmatadas perto da BR-101, só dão guarida para magros  rebanhos de boi, que, coitados,  não dispõem nem de sombra de árvores para se abrigar do calor, tivessem sido reformadas, como pretendia João Goulart em 1964?
O outro, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), logrou grande prestígio internacional, mas era pouco conhecido do grande público brasileiro. Sua eficiência  em integrar os agricultores familiares e seus produtos a mercados institucionais de circuito curto, ou seja, municipais, respeitando as características e hábitos alimentares regionais, levou os Estados Unidos a fazerem uma reclamação oral contra o programa em uma rodada de negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio). Poucos meses depois, em 2013, a Polícia Federal, atendendo as determinações do xerife de toga de Curitiba, Sergio Moro, desencadeou uma espetacular operação: a “Agro-fantasma”, prendendo agricultores que faziam parte de várias cooperativas agroecológicas do interior do Paraná por supostamente usarem a má-fe  na entrega dos produtos do PAA. É que, ao invés de batatas, eles entregaram inhame, ou algo assim. Todos os camponeses presos e humilhados foram absolvidos por falta de provas, simplesmente  quando uma juíza que assumiu o caso, para Moro se concentrar na Lava-Jato,  observou os ritos jurídicos normalmente prescritos pela Constituição.  Mas o Ministério Público do Paraná segue tentando prender alguém por conta deste programa que garantia alimentação fresca e de qualidades para asilos de idosos, orfanatos, creches e escolas da região.
O fato é que governos do PT passaram seus 13 anos dissociando o discurso da agricultura familiar da política pública chamada reforma agrária, única que garante que de  fato seja possível a reprodução social de agricultores familiares, dado o monopólio fundiáro que existe no Brasil. Como este é um tema incômodo, que deixava de mal humor os aliados de plantão, o PT deve ter optado por retirar da agenda. Como resultado, diminuíram drasticamente a criação de assentamentos a partir de 2007, homologaram ao mínimo as terras indígenas em relação aos governos anteriores e aumentam as políticas para “viabilizar” a agricultura familiar sem mexer na estrutura que facilita ou não sua expansão: a agrária.


Terras Indígenas Homologadas
Presidente [período]
Extensão (Ha)
Michel Temer [mai 2016 a abr 2018]
1
19.216
Dilma Rousseff [jan 2015 a mai 2016]
10
1.243.549
Dilma Rousseff [jan 2011 a dez 2014]
11
2.025.406
Luiz Inácio Lula da Silva [jan 2007 a dez 2010]
21
7.726.053
Luiz Inácio Lula da Silva [jan 2003 a dez 2006]
66
11.059.713
Fernando Henrique Cardoso [jan 1999 a dez 2002]
31
9.699.936
Fernando Henrique Cardoso [jan 1995 a dez 1998]
114
31.526.966
Itamar Franco [out 92 | dez 94]
16
5.432.437
Fernando Collor [mar 90 | set 92]
112
26.405.219
José Sarney [abr 85 | mar 90]
67
14.370.486
Tabela 1: Terras Indígenas Homologadas

É Marx básico saber que não se pode fortalecer um determinado segmento econômico porque ele se fortalece políticamente, não é?
O capitalismo na América Latina tem sido baseado na produção e extração de produtos primários agropecuários ou minerais. Ou seja, é um capitalismo que depende essencialmente da renda da terra, obtida a partir da exploração agrícola ou da extração de recursos naturais como minério e petróleo.  Quando a economia de uma região depende disso, é possível entrar em jogo a regulação estatal, visto que é o Estado que deveria regular a posse, propriedade e uso da terra e é ele que estabelece as regras de exploração de seus recursos minerais. Quando este processo é regido pelo mercado, tem um particular que é a apreciação do ativo terra, no caso da agricultura, quando vale muito a pena exportar mercadorias primárias para o exterior.  Atualmente, o capitalismo sofisticou suas formas de ganhar renda sobre a renda da terra. Em um país continental como o Brasil, com extensas áreas agrícolas e uma oligarquia reacionária renhida, esta aposta levou ao fortalecimento dos grandes proprietários rurais especializados na grande produção mecanizada e cheia de insumos e que ganha dinheiro na medida em que tem crédito baratos e  vastas extensões de terra para produzir.  Este tipo de empreendimento capitalista, particularmente no Brasil,  depende da frouxidão pela qual o Estado regula a posse, a propriedade e o uso da terra. Ele se favorece quando tem liberdade para avançar na fronteira agrícola expulsando quem estiver no caminho. Como isto segue absolutamente entrelaçado com o poder político, poucos meses de Golpe já foram suficientes para desmontar várias das grandes políticas agrícolas voltadas para  o fortalecimento da agricultura  familiar.
O grande problema é considerar que a pressão dos movimentos sindicais do campo, que influenciaram a criação destas políticas, bastava para consolidá-las.  A verdade é que estas políticas são indissociáveis da reforma agrária propugnada na década de 90, através de ocupações massivas de terra e mobilizações conjuntas de movimentos sociais e movimentos sindicais, os chamdos Gritos da Terra de 1994 e 1995. Ou seja, não podem ser descoladas de um contexto em que a luta por terra e território andava de mãos dadas com as demandas mais específicas do que passou a se chamar de agricultura familiar. E dissociar um do outro é o que fragilizou estas políticas. Porque fragilizou numericamente a base destes movimentos que voltaram-se para a viabilização desta relação com o estado através de inúmeras políticas públicas como o PAA,PNAE, Pronera (Programa de Educação na Reforma Agrária). Não sou contra estas políticas, mas elas não poderiam ter sido implementadas obscurecendo esta relação com a reforma agrária, a grande medida polêmica do jogo e que de fato ameaça a lógica do agronegócio.  Isto ocorre cada assentamento criado divulgava a possibilidade de que qualquer um podia conseguir terra. Houve sem-terras que obtiveram terra com menos de dois anos de acampamento até 2006. Assentamentos realizados rapidamente ou processos de discriminação ágeis de terra devoluta sempre serviram como abertura da torneira pela qual poderiam jorrar inúmeros contigentes de brasileiros interessados em ter terra.  Fora que a ameaça de deslegitimar títulos de propriedade por parte do Estado teria o efeito imediato de baixar o preço da terra.
No entanto o Governo Dilma, além de diminuir escandalosamente a criação de assentamentos, permitiu que uma norma legal viabilizasse a emancipação dos assentados de reforma agrária  que pagassem  as dívidas contraídas com o estado para a implantação do assentamento. Sim, porque assentamento não é terra grátis e este processo significa que eles vender rapidamente e devolvendo esta terra para um mercado de terras já inflacionado. Um processo totalmente aplaudido pela Bancada Ruralista e  que tem sido realizado com bastante afinco pelo INCRA obsecado pelas metas de “titulômetro” dos anos Temer. passam a ter o título de suas propriedades, que eram antes da União, podendo vender rapidamente e devolvendo esta terra para um mercado de terras já inflacionado. Um processo totalmente aplaudido pela Bancada Ruralista e  que tem sido realizado com bastante afinco pelo INCRA obsecado pelas metas de “titulômetro” dos anos Temer. 



[1]  41 de 200 famílias assentadas na área.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre a delinquência empresarial brasileira: o Caso Extra


Comprei uma geladeira na internet do Extra.com.br no dia 27 de janeiro. Davam no máximo 9 dias para a entrega da geladeira. Mas a nota fiscal foi emitida no dia 1º e me enviaram um email dizendo que até no dia 10 de fevereiro a mina geladeira seria entregue. Detalhe: não consegui me cadastrar na Central de Atendimento. Diz que o CPF já está inscrito, mas eu não consigo nem receber a indicação para a nova senha ou  o meu e-mail.  Supostamente eu teria, através da Central de Atendimento, informações mais precisas sobre a entrega da geladeira. Liguei para a loja para falar do problema na Central do Atendimento, e a moça que me atendeu disse que a geladeira seria entregue até o dia 9 de fevereiro. E que me enviaria a senha redefinida. Depois me ligaram de novo dizendo que eu tinha que me cadastrar de novo... Coisa que eu já não conseguia. Me disseram que eu tinha que esperar 48h dias para me cadastrar de novo. Sábado, dia 4, era o segundo dia depois do telefonema que permitiria eu me recadastrar de novo. Saio de casa por volta das 12:40 e, para meu espanto, me liga um sujeito às 13:07 me dizendo que era "das Casas Bahia" e que tinha a geladeira para me entregar. Eu surtei. Tinha que voltar correndo para a casa e pedi. “Me esperem!”
"Dá não". Como assim! Me esperem, volto correndo. "Não podemos". E depois de eu reclamar um monte, caiu a ligação. Resolvi não voltar com o risco de chegar e eles não estarem mais. Uma hora depois me liga outro, perguntando se eu ia voltar. Eu falei: como, vcs falaram que não iam esperar, resolvi não ir. Pela conversa entrecortada do sujeito, entendi que iam me entregar na terça ou na quarta, por que segunda-feira é folga deles.
Uma moça me ligou pouco depois tentando explicar o acontecido e me avisou que como ia voltar para o depósito, a geladeira só ia ser entregue a partir de 5º feira!  Reclamei o que pude. Falei para ela: se os entregadores podem me ligar quando chegam na minha casa, porque não me ligaram um pouco antes de irem? Tecnicamente eles foram me entregar a geladeira no sábado de tarde, fora do horário comercial!!! Por que não me ligaram antes. Eu teria ficado em casa esperando. Não teria saído!E quanto ao “Extra”, a  loja on line que me vendeu a geladeira? Me enviaram um email no dia segeuinte dizendo que “a mercadoria tinha sido entregue no dia 5 de fevereiro. Fim de semana, gente, não tem para quem reclamar, né? Não tem telefone de contato e a central de atendimento, lembro a vocês, não aceita minha senha e não aceita que eu me inscreva de novo...
Entrei no site “Reclame Aqui” para desopilar o fígado.... e o que apareceu hoje, segunda-feira, dia 6,  na minha caixa postal do site de reclamações? Uma tal de Brenda, do Extra, me dizendo que minha geladeira foi entregue!!!! Cadê a minha geladeira??? Tive que ligar para eles novamente e o sujeito que me atendeu  limitou-se  a dizer que iam  verificar isso!
Fala-se hoje muito dos políticos e da roubalheira das empreiteiras.  Mas  não da “delinqüência empresarial” que grassa neste país, agora com capital cada vez mais monopolizado. O Extra é também Casas Bahia e também Ponto Frio. Também é, obviamente,  Grupo Pão de Açúcar”. Eles se uniram para cortar custos, demitir empregados e  nos prestar um serviço cada vez pior, enquanto eles lucram mais um pouquinho sempre.  E nós, o povo otário de plantão, seguimos sendo humilhados por todos os lados.  Pelos interesses do capital e pelos políticos que a eles servem. Somos roubados de todos os lados Achar que porque é empresa está fora dessa lama toda é ser muito ingênuo. A livre-iniciativa, que os liberais amam, já  produziu um monte de excrescência e um dos sinais do quanto a falta de regulação que permite monopólios.
como esse é contra o interesse público é uma pessoa comprar algo e ficar  ouvindo e lendo a informação de que foi entregue!  E ainda não saber, depois de 9 dias de sua compra, quando terá sua geladeira em casa! 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Atestados de veracidade para a história"


É efetivamente preocupante vir estampado nos jornais da mídia hegemônica a visão do atual presidente da Associação Nacional dos Jornais", Marcelo Rech, que atribui aos membros deste grupo, os maiores conglomerados de mídia comercial do Brasil, a capacidade de serem "certificadores profissionais da realidade".
Sei que estamos em plena disputa de narrativas: "golpe" e o "não é golpe". E é justamente por isso que eles perderam esse lugar de "certificadores". Eu e muitos que pensam como eu não vêem suas idéias e percepções difundidas também por eles. É tão evidente a manipulação deste grupo de famílias que faz parte da Associação Nacional dos Jornais"(ANJ) sobre o que para eles é a realidade política deste país que eles deixaram de ser referência para mim. Eu não vejo boa parte da realidade política deste país expressa nestes jornais. A realidade que eles criaram não corresponde a que eu vejo.
Um amigo meu, jornalista espanhol, Bernardo Gutiérrez, percebeu isso durante a campanha de reeleição do Lula, em 1996.
Tudo bem. Muitos vão dizer que eu sou uma pessoa militante, de esquerda, etc., mas essa é que era a graça. Antigamente, mesmo minoritariamente, a gente via "notícias", ou seja, fatos construídos como dignos de serem vistos e difundidos, que correspondiam ao que eu, enquanto cidadã de coloração de esquerda mais ou menos assistia. Com graves deslizes, como a "degola" que não houve no conflito da Praça da Matriz, em 1990, mas geralmente, correspondia.E eu continuava a lê-los.
Hoje nem me dou ao trabalho.
Compro jornal de vez em quando, e uma vez por semana para saber as estréias de cinema. E como eu, vários desistiram.
Sempre foi pelo cinema que eu lia jornais. Voltei a lê-los pelo cinema e nada mais.
Mas realmente é muito pouco para uma função importante e pública que infelizmente esta turma da a ANJ não respeita mais.
Òbvio que em tal desvantagem, o meu lado, "esquerda" de vários matizes, também deve apelar para distorções aqui, acolá. Mas geralmente estou confiando mais neles.
Pois eles traduzem algumas coisa que eu realmente experiencio na minha realidade circundante, ou melhor, nas percepções da realidade que eu compartilho com vários de vocês.

sábado, 13 de agosto de 2016

A fatla de coragem política e a educação

A falta da coragem política e a educação

Por Débora F. Lerrer

 Como faz falta a coragem política, ou o que Gramsci chamava de “jacobinismo na ação” no cenário nacional, hoje coalhado de medíocres políticos.
Sinto pena que o Brizola tenha decidido partir dessa para melhor no início do Governo Lula por que ele teria sido um farol para evitar esses desastres políticos proporcionados pelo PT em seus últimos mandatos e talvez mais sábio em lidar com as manobras golpistas que vicejam no ambiente político brasileiro.  Diga o que quiser do Brizola, mas era corajoso. Não foi bom na construção de um partido. E, além disso, foi golpeado. Roubaram dele a sigla PTB, mas se  não fosse um político grandioso, o próprio PDT não teria vingado.
Tem que olhar em perspectiva. Pensar adiante.
Por exemplo, agora estamos em uma espécie de janela demográfica. A tarefa mais importante de qualquer grupo que esteja no poder hoje é simplesmente encontrar alguma forma de enfiar todas as crianças vulneráveis em escolas, dá-las assistência de vários tipos, para eles se tornarem talvez a geração que dará o salto qualitativo deste país. Mas houve este golpe vagabundo e há risco até de se limitar os gastos com educação!!!
Infelizmente, a escola pública em vários níveis não dá conta disso, por enquanto. Mas temos que perseguir isso. As escolas básicas só podem ter no máximo 20 crianças por sala. Temos que criar mutirões nas escolas públicas para reformar, pintar, decorar.  Chamar a comunidade escolar, pais e parentes dos alunos, a contribuir como puderem. 
Em suma, tentar caminhos institucionais para se ir mudando aos poucos determinadas realidades através daquilo que vem de nós. O melhor de nós. Afinal, não somos organizados para fazer festas? Então nos organizemos, enquanto sociedade civil, para acolher essas crianças! Cada brasileirinho hoje é uma fonte de possibilidades abertas para florescer a nossa civilização.  Sim, a civilização brasileira. Que é uma entre várias, mas que como é a minha, eu faço questão que ela atinja suas melhores potencialidades.
Claro que não devemos esquecer de aumentar o salário dos professores até chegar ao patamar do que  recebiam na década de 60. É esse o padrão salarial que deve ser respeitado e do qual nunca devíamos ter saído.
E  o Brizola, sim, ele sempre pensava em educação. E pensava a sério. Não da boca para fora. Tirava realmente recursos do orçamento do estado para promover essa área. Desde sua época no governo do Rio Grande do Sul, quando espalhou as “brizolinhas” pelo interior gaúcho.
Hoje, mesmo que tenham desfigurado a proposta ao longo dos anos, seus monumentos chamados CIEPS pontuam a paisagem do Rio,  lembrando para a população que  basta querer, que essa idéia pode renascer.


Se não fizermos o caminho, não chegaremos lá.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Primavera brasileira

Estamos vivendo uma espécie de "primavera" política no meio deste caos provocado por este governo interino absurdo.
Mas nada como sacudir a poeira e ir para a luta.
Vejo mais gente procurando se encontrar, procurando entender, procurando se informar melhor e, sobretudo, procurando fazer qualquer coisa para resistir e virar a mesa.
A indignação cresce. E só cresce.
Liberar venda de terra para estrangeiros, entregar o Pré-sal de bandeja (e assim rifar fundos para a educação pública), privatizar o que ainda sobrou. Extinguir Ministério do Desenvolvimento Agrário, Secretaria das Mulheres, da Igualdade Racial. numa canetada. Como se fosse assim... fácil?
E tudo rápido. Com pressa, antes de serem escorraçados.
E como se não bastasse, em meio à imensa revolta de mulheres, fartas de tanta violência, nomear uma secretária evangélica contra o aborto até em casos de estupro?
Como assim, cara-pálida????
Amanhã, a partir das 16h. Largo do Carioca.

Mulheres pela Democracia contra o Golpe!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Espetáculo de cínicos

Estou envergonhada por ter visto no domingo, dia 17 de abril,  aqueles canastrões de terno e gravata proferindo as mais altas baboseiras na frente do cínico que presidia a sessão. Foi a maior humilhação que essa sociedade recebeu. E o pior é que as pessoas mais bem alimentadas e protegidas por esta desigual sociedade acharam normal porque estavam encenando a tirada do "bode expiatório" da vez do poder: O PT, os "vermelhos...
Foi pior do que o 7 a 0 para mim. Futebol não tem efeitos concretos. Só simbólicos. Mas a política feita naquela casa liderada pelo Cunha tem.
Dizem que cada país merece a classe dirigente que tem, mas aqui como o poder do dinheiro manda muito e as instituições com o STF são lerdas ou coniventes, só posso é continuar acreditando que não somos esse país de boçais que eu vi espelhado ontem na TV. E um recado aos "liberalóides" de plantão: faz de conta que foi a meritocracia que colocou aqueles deputados ridículos lá e não a torpe corrupção que irriga de dinheiro o PP, o PMDB e CIA desde que eles se entendem por partido. Lembrem-se que o primeiro diretor a fazer "delação premiada", o Costa, era indicado do PP. Muito triste ver esse espetáculo de cinismo ao vivo e a cores e com efeitos tão profundos para a nossa nação.

sábado, 5 de março de 2016

13 de março?


Há linhas que, quando ultrapassadas, a gente se toca: NO PASSARAN!
Como é que o grupo que quer tirar a Dilma do poder resolveu  convocar uma manifestação para o dia 13 de março? Como assim, cara pálida? 13 de março é o dia do célebre comício da Central do Brasil, quando o presidente Jango anunciou a reforma agrária e uma taxação da remessa de lucros das multinacionais para o exterior. O Brasil teria sido muito diferente se tivessem deixado o Jango fazer sua reforma agrária bastante tímida, por sinal... Mas, ao invés disso, golpearam o país acenando com um tal perigo sindical ou comunista, longe dos idéias dos trabalhistas.
Sempre acho que o fato de não ter tido resistência ao Golpe de 64, emasculou o Brasil e os brasileiros. O Jango avaliou que não dava, sei lá. 
Mas o fato é que a repressão baixou feia, matou, detonou e as melhores cabeças que governavam ou emitiam opiniões sobre o Brasil foram exiladas ou deposta
s: Darcy Ribeiro, Santiago Dantas, Celso Furtado, Josué de Castro,Paulo Freire, Anísio Teixeira.. Os maiores e os melhores foram apeados do poder sem qualquer resistência. O país ficou à mercê dos gorilas ignorantes da vez e somos desde então os piores em desigualdade social do mundo. 
E, a ignorância grassa, pois tem gente que pede os milicos de volta! Como se as empreiteiras hoje no banco dos réus não tivessem começado sua carreira meteórica de favores e propinas justamente na ditadura militar! Sim, sem democracia para denunciá-los!
A Dilma é fraca, politicamente incompetente. Mas foi eleita. Ponto final. O Lula pode até ter recebido favores das empreiteiras, mas dividiu um pouco melhor o bolo... bem pouco por sinal, mas dividiu.
E o povo sabe. Sente na pele o que é isso. Comer melhor faz muita, muita diferença.
O dia 13 de março tem que ser um dia de combate contra esses ignorantes que ousam tripudiar com a nossa memória histórica.
Quando o Serra que quer entregar o pré-sal para a Chevron sofrer uma investigação profunda como a que ronda o Lula, aí eu vou me sentir mais tranquila. O pré-sal só pode ser um negócio muito bom para ter tanto urubu voando sobre a carniça da Petrobrás.E um vendilhão como o Serra segue impune, sem qualquer mácula sobre seu passado esquisito na era das privatizações tucanas...Todos eles ficaram muito ricos, por sinal..
O  Lula ao que parece, também ficou muito bem de vida depois da presidência. E os filhos dele também.
Mas, não era para tê-lo arrastado de casa às 5 da manhã por isso! Humilhar o Lula? NÃO!
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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pedro II e a Educação brasileira


Dia 19 de fevereiro, levei Agatha, minha filha para a inauguração de uma unidade do Pedro II, escola pública de excelência do Rio de Janeiro, onde, por obra da pura sorte, ela vai estudar a partir deste ano.
Foi sorteada. Ela e mais um total de no máximo umas 500 crianças.
Fiquei emocionada no saguão simples. Sem regalias. E encantada com as salas de atividades que ela vai ter oportunidade de desfrutar em seu aprendizado: sala de música, sala de literatura, sala de computadores, sala de ciências.
Ela amava o CEAT, a escola onde estava. E creio só  se convenceu que era uma boa ir para o Pedro II por conta dos esfuziantes parabéns que recebemos. Entendeu que devia ser algo muito bom.
Somos umas das poucas famílias brasileiras a desfrutar do benefício de ter uma escola pública, de qualidade, com professores dedicados, valorizados e uma estrutura sóbria,  modesta, mas com tudo que uma criança precisa para gostar de aprender.
Queria que houvesse Pedros II para TODAS as crianças brasileiras.
Agradeço muito a oportunidade que minha filha recebeu.
Mas a verdade é que a própria existência de uma instituição como o Pedro II demonstra que sabemos como se faz uma educação pública de qualidade. Ou seja, não existe mágica e fórmulas milagrosas. É desse jeito:  corpo docente com bom plano de carreira e valorizado, estrutura, etc. Não sei como o Pedro II conseguiu se manter e o “Julinho” em Porto Alegre, não.  O primeiro é federal. O segundo estadual. Mas e aí? Aplicando a racionalidade funcional de um consultor de gestão: basta replicar os procedimentos. E, óbvio: os recursos.
Sei que lá dentro as lutas existem para garantir que ele siga assim. E melhore. E talvez é isso que tenha faltado nas demais escolas públicas: não deixar a peteca cair. Os pais de classe média foram tirando  seus filhos quando as escolas foram piorando. E o problema, não sendo mais deles, foi seguindo ladeira abaixo. 
Sempre achei que se tivesse filhos tentaria colocá-los em escola pública para assumir também o compromisso de resgatá-la. Mas trabalho muito. Avaliei, quando a Agatha nasceu, que não teria tempo para isso. E é mais cômodo mesmo a gente encaminhar nossos filhos para as escolas particulares.
São várias as lutas que a gente deve travar cotidianamente. E esta eu não ia conseguir dar conta por conta do tempo e dedicação que seria necessário e por envolver ela.
Sim, porque eu tenho a possibilidade da escolha. Mas milhões não têm.
Por outro lado, com  a quantidade de impostos que a classe média paga neste país, como ela tolera ter perdido este serviço essencial, topando pagar fortunas para garantir um bom  futuro educacional  para seus filhos? Por que ela se retirou desta luta?
Sim, educação é um serviço essencial. E no estágio demográfico que está o país, não há nada mais importante para se investir. Nenhum PAC da vida se iguala à estratégia  embutida em um governo que prioriza a educação: investir nas pessoas e, sobretudo, nas crianças.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack e o ponto de vista da criança



Tenho que procurar ir pelo menos uma vez por semana em um templo humanista chamado cinema.  Nos últimos tempos, geralmente não consigo. Mas sei exatamente o tipo de filme que  gosto. E quando vejo um desses,  fico desgustando as experiências que ele me trouxe. Ettore Scola, um dos meus diretores preferidos, que foi-se há pouco daqui, definiu o cinema mais ou menos como  “aduas horas  nas quais na escuridão e no silêncio, anjos e demônios disputam a nossa alma”. Portanto, a frequentar cinema é sim como uma espécie de religião, visto que promove que a gente saia do nosso mundo pessoa “para ocupar-se com qualquer coisa maior”.  E nos bons filmes, há sempre uma injeção de humanismo e transcendência.
Isso porque os grandes filmes, como os  grandes romances, seu processos de aprendizagem que fazem a gente verificar a nossa subjetividade, vivendo aquelas emoções,  interpretadas por outros, que nos fazem sentir aquelas sensações de modo a pensar sobre elas.
Por esta razão, os bons filmes são os que tem pelo menos dois planos, senão três: o enredo, a forma como é contado, ou seja a narrativa, e as múltiplas leituras que ele suscita.  Cada um o assiste com seu repertório.  E com ele dialoga agonisticamente com o que está assistindo
O filme, “O Quarto de Jack” é uma grande obra neste sentido, ao contar uma história triste que se repete infelizmente desde o início dos tempos, tendo como vítimas garotas. Mas este lugar é percorrido sob o ponto de vista de um menino. Uma mãe se desvelando para criar um mundo em um minúsculo quarto, sob o ponto de vista de seu  filho.  
Cenas geniais, fotografia comprometida com a narrativa e grandes atores em cena. O mais puro cinema, abrindo boas  perguntas sobre essa fascinante aventura da maternidade sob o ponto de vista de uma criança.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O caos e a vulnerabilidade em Porto Alegre



Cheguei a Porto Alegre na manhã seguinte ao vendaval ou ciclone feito de raios que partiram grande parte da bela cobertura de árvores da cidade, na sexta à noite, dia 29 de janeiro de 2016.
Fora elas, retorcidas, partidas, no chão, foram mais ou menos cinco mortos pelo que ouvi. Pessoas hospitalizadas dependendo de respiradouros que falharam com a falta de luz. E um colombiano no trânsito.
Um colombiano perdido na minha cidade!
Vários bairros sem luz e água desde sexta-feira. Caos democraticamente espalhado por todas as classes sociais. E, cadê o Prefeito? Cadê alguma liderança que apareça centralizando as informações de algum modo em algum lugar? Dando pelo menos alguma aparência de coordenação das atividades? Pedindo verbas ao Governo Federal? Na verdade, se há um prefeito que não faz isso, para que prefeito? Sem acesso a luz, só o velho rádio como suporte.E sem rádio, nada. Uma cidade sem semáforos - que lá se chamam sinaleiras - funcionando nas suas principais vias.
Deu para ver a nossa vulnerabilidade e incapacidade de lidar com eventos climáticos que devem se tornar mais frequentes. Houve vários temporais o ano passado em Porto Alegre. Na verdade, sempre houve. No jornal diz que o Saint-Hilaire viu um do mesmo estilo. Mas então não tinha tanta gente, tanto fio elétrico.
Parece, segundo a atendente do aeroporto, que os americanos sabiam que ia acontecer o suposto ciclone na cidade. Contei isso ao taxista carioca que retrucou: pra que saber antes? Em suma, de que iria adiantar saber antes em um lugar completamente despreparado como estava Porto Alegre. Só ia causar pânico. E ninguém, como vemos agora, ia saber o que fazer mesmo. Pelo visto, o jeito é a gente se tranquilizar diante da nossa terrível vulnerabilidade.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Chico Buarque



Cada país tem seus ídolos. E eles representam esse papel para um determinado povo porque sintetizam em si algo que todos desta determinada sociedade valorizam. Ao começar o documentário “Chico Buarque: um artista brasileiro”, com o próprio cantando uma música com o ponto de vista de um negro escravo em vias de ser severamente castigado por supostamente ter visto a sinhá nua, Miguel Faria Jr sintetizou o que para os brasileiros medianamente informados Chico Buarque representa: um grande poeta bem humorado, músico, jogador de futebol, afeito à malandragem, que constantemente expressa algo que cala fundo em nós.
Mas estranhei que não falasse do engajamento dele com a luta pela reforma agrária. Que não é luta qualquer e na qual Chico, liderado por Sebastião Salgado e ombreando José Saramago, emprestou sua sensibilidade para dar visibilidade para a questão, então menos paralisada nacionalmente no ano de  1997.
Em tempos sombrios e ao mesmo tempo ridículos, é bom ver que a quinta essência do  brasileiro é inteligente, bem-humorada, crítica e malandra. Algo em mim  tem o Chico como representante, portanto algo temos em comum.   Temos alguma salvação.
Mas é esquisito um documentário desses  pular, nem sequer mencionar uma imagem daquele momento, dando a entender erroneamente que o Chico é um “liberal” como qualquer outro.  Desde o primeiro show “Canta Brasil”, em  1982, quando a luta pela reforma agrária, em plena ditadura militar, se expressava em Encruzilhada Natalino (RS), Chico era atento a ela.  Doou seu cachê para o acampamento.

Eu tenho uma lembrança engraçada desse show. Fui com minha mãe. Adentramos o gramado do Estádio Beira-Rio. Que emoção para uma menina colorada de 14 anos! E de repente, na hora que o Chico começou a cantar, minha mãe descolou um binóculo. E começou a gritar “Os holofotes! Ele tem holofotes azuis”. Fiquei perplexa. Nunca tinha visto minha mãe manifestar qualquer interesse por algum ídolo. E o choque dela com os “holofotes azuis” do Chico, me passando o binóculo para eu também olhar, me deixou cismada com aquele homem.  E me fez seguir a sua música. E com ela, eu cresci muito bem acompanhada de palavras, versos, músicas e emoções. Obrigada, Chico.

domingo, 20 de setembro de 2015

O fim da doação de empresas para campanhas eleitorais e as cicatrizes de 64



Em meio a essa deriva política pela qual navega o Brasil, houve luz no fim do túnel.  A decisão do STF de barrar doação de empresas para campanhas eleitorais é uma vitória que ainda parece em dúvida - a se levar em conta o que o Presidente da Câmara dos Deputados alardeia -  mas é a única grande mudança institucional de peso no país desde a década de 90, quando a reeleição foi instituída pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em meio a denúncias de compra de votos dos parlamentares dessa mesmíssima Câmara de Deputados.
Às vezes parece que o Brasil anda em círculos, mas o fato é que a crise política que hoje paralisa a economia reedita um problema com o qual o Brasil se debate desde os famosos Anos JK, quando as empreiteiras, por ocasião da construção de Brasília e do plano de metas aplicado sem reformas estruturais importantes como a agrária, começou um festival de corrupção que levou a eleição de Jânio Quadros. O grande mote do presidente  histriônico que logo renunciou ao poder  foi  justamente uma vassoura para varrer toda a sujeira das “tenebrosas situações” que se forjaram então entre o governo e as empreiteiras envolvidas em “grandes obras”.
Na época, quem ocupava a posição do PT, com seu suposto comunismo, era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) então em aliança com o PSD, partido de Juscelino Kubitschek. Os problemas criticados  à esquerda do PTB eram os mesmos: eleições visando obter empregos para sua base, falta de firmeza programática, corporativismo. Para a direita, Jango queria instalar uma “república sindical” no Brasil. E todos as lutas dos trabalhadores expressavam o perigo do comunismo.
A polarização pela qual hoje passa o Brasil tem certas tonalidades muito parecidas. E também como não poderia deixar de ser, beira a farsa.
O fato é que toda onda de crescimento  capitalista embute alguma dose de práticas ilícitas até porque muita gente passa a perna na tal da competição molhando a mão de agentes de diversos tipos, sobretudo do Estado. O capitalismo é um sistema econômico irrigado em corrupção. Só instituições democráticas fortes e com legitimidade, como um Poder Judiciário eficaz e independente, é que coíbe essas práticas na base da punição exemplar. Mas em um sistema oligárquico de representação como temos no Brasil,  onde temos um Congresso eleito pelo poder econômico, é praticamente impossível se ver imune dessas práticas.
Por isso, a decisão do STF é tão importante. E é ultrajante ver um presidente da Câmara indiciado criminalmente ter a pachorra de declarar publicamente que vai tentar reverter essa situação. O fato de ele ainda se sentir forte para mandar na Câmara é que é preocupante. Tem gente que imagina que todos  essas iniciativas dele visam garantir algum capital político para evitar a cadeia que lhe espera. Mas o fato é que o Governo Dilma é tão fraco que nem sequer consegue defender o que fez de bom, garantindo as mudanças institucionais exigidas que beneficiam a maioria, como o regime de partilha do Pré-Sal, agora também ameaçado por Cunha, depois de ter sido derrubado no Senado.
É espantoso ver como ainda se move com desenvoltura um presidente da Câmara que claramente feriu o regimento interno da Casa para promover um dos maiores retrocessos com relação aos direitos com a mudança da maioridade penal.
Nessas horas só tenho a lamentar o imobilismo político da população que devia estar ocupando o Congresso Nacional para constranger esses deputados eleitos pelo poder econômico a não ousar implementar essa mudanças lideradas por Cunha.   Se a Dilma vai ser “impichada” ou não, pouco importa. Incompetente para articulação política e fraca do jeito como está tende a se submeter a qualquer chantagem.  O que importa é afastar esse histérico deputado da liderança da Câmara e mostrar para os engravatados de lá quem manda efetivamente no Congresso. É só a vontade popular expressa em grandes manifestações lá mesmo em Brasília  que pode impedi-los. Isso  se não queremos ser golpeados pelo poder econômico  como em 1964, mas desta vez, obviamente como farsa, porque  fazendo de conta que estamos em uma democracia.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A INFLAMAÇÃO NECESSÁRIA: POR UMA AUTOCONSCIÊNCIA NACIONAL

Por Débora F. Lerrer                                                                                      
Num período de enorme ressaca política,  é bom  nos guiarmos por idéias que nos levam para além da mediocridade reinante no cenário político nacional.
Até por que são idéias de um dos autores brasileiros mais lidos do mundo: o rabino Nilton Bonder. Há cerca de dez anos atrás o vi dando uma entrevista para a então TVE, afirmando sem titubear que o mundo caminhava para o socialismo.  Mas quem falava seriamente em socialismo em plano ano 2000? Um rabino? 
Lá por 2004, mesmo embalados pela ascensão do PT (Partido dos Trabalhadores) ao poder, sabíamos que Lula certamente não faria um governo socialista. 
Quem sabe faria alguma mudança agrária que pudesse levar o nome de “reforma”. Como vimos, nem isso.
E então veio a enxurrada de decepções políticas iniciadas com o “mensalão”,  que decepcionaram  a minha geração que começou a votar com a redemocratização, no fim dos anos 80, e nem titubeava na hora de votar no PT.
Bonder, no entanto, enxerga essa decepção sem leniência, mas com generosidade.
 Para ele,  a ascensão do Partido dos Trabalhadores  à Presidência da República foi um típico “ato inflamatório correto e importante” para a sociedade brasileira. Mas quando o PT, sentido-se “dono da verdade” , se acomodou em seus cargos e benefícios,  o inimigo de seu projeto passou a não ser mais a direita, mas ele próprio.
Explicando melhor:  o rabino chama as mudanças sociais de “processos inflamatórios”.  E é nesse sentido que  ele tem certeza de que as transformações pelas quais o mundo vem passando nos levam em direção ao socialismo. “ A não ser que no meio do caminho nos acometa um processo inflamatório grave que nos faça morrer”. Bom lembrar que  a inflamação, ao contrário da infecção, não é causada por um agente externo ao nosso corpo. Ela é causada por nós mesmos.
Em suma, sempre há um custo grande em manter esses processos inflamatórios, pois neles as pessoas tendem a recolocar uma nova opressão, ou nas palavras de Bonder:  “um novo faraó”.
 Ele acha que esse processo em torno dos governos do PT estão servindo para fazer a sociedade brasileira amadurecer politicamente, porque as pessoas continuam “cultivando a fantasia de não acolher que sua humanidade  é e será sempre imperfeita”.
Talvez aí resida o espelho desconfortável que o PT representa. Não somente os políticos que são corruptos no Brasil. A sociedade brasileira está permeada de práticas levemente ou pesadamente corruptas de cima a baixo de seu espectro social. E é preciso encararmos isso de frente.
De fato, só depois de assumirmos e acolhermos nossos erros, crescemos.  E  o Brasil é uma sociedade em amadurecimento. Temos 500 anos de colonização política,  cultural e econômica nas nossas costas. Fomos por mais tempo parte do projeto de outros. Muito lentamente e lutando sempre contra esse colonizadores -  também internos - é que fomos constituindo uma identidade nacional. 

AS JAZIDAS DE SOCIALISMO

Para quem se acostumou com a idéia geralmente mal-compreendida de Marx de que “a religião é o ópio do povo”,  Bonder responde de maneira inusitada. Ele   associa “socialismo” à “era messiânica” que é para onde, acredita ele, a humanidade está caminhando. Para ele, “a matéria-prima do socialismo é a religiosidade”, em torno da qual formam-se  “jazidas comunitárias”, onde as pessoas experimentam coletivamente -  e geralmente  “de boa-fe” - que a vida não se reduz “a eu por mim, a eu sozinho”, algo bastante significativo dentro de sociedades cada vez mais individualistas e consumistas, onde as pessoas perderam seu “capital comunitário” e se limitam a satisfazer seu lado animal, que é o do atendimento dos desejos imediatos. 
 Afinal, o homem é o único bicho que sabe que vai morrer e tem que lidar com isso a vida inteira.  Se ele se aprisiona na busca para satisfazer os seus desejos individuais do aqui e agora, nunca terá satisfação alguma, pois o sentido do viver se perde no meio da reiterada insatisfação.
O problema dos regimes socialistas realmente existentes foi que após a revolução - ato inflamatório por excelência - quando a insatisfação popular ateou fogo nas estruturas dominantes das sociedades, a inflamação persistiu, devorando seus próprios filhos.
Muitas vezes as utopias levam as pessoas a lugares inviáveis.  E nada acontece de uma hora para a outra. Sempre será um processo.
A fuga dos judeus do Egito continua a ser para ele a melhor metáfora desta busca pela emancipação humana que tem nas utopias anarco-socialistas sua melhor tradução laica.  Os 40 anos que os hebreus demoraram para chegar  à “terra prometida” revela, justamente, a dificuldade que  tiveram de efetivamente “tirar o Egito dentro deles mesmos” e se submeterem às novas regulações – os 10 mandamentos - que tinham que ser implementadas para viverem juntos a partir da emancipação recém-conquistada. O momento que Moisés recebe a  Lei é o momento em que, após a libertação, os judeus têm  que se submeter às novas regulações  éticas expressas por Deus.  Regulações que devem baixar a fervura da “inflamação revolucionária”.
“O que Deus quer é que vc não mate, não roube, não inveje o outro, não produza falsidades, não seja corrupto. Isso é o que Deus quer. Ou seja, Deus quer que vc seja do bem, que vc seja um ser social não só preocupado consigo, mas com a sociedade, com seu próximo. Isso é a base de toda a estruturação ética que nós temos no Ocidente”. 
A inflamação revolucionária é importante, mas também é fundamental para que suas realizações permaneçam que se saiba quando baixar o calor para que ela não devore seus próprios filhos. E nas suas palavras, aí vai uma ótima síntese do sentimento que a maioria dos ex-petistas que não são “anti-petistas” sentem:
“É muito comum todos os movimentos messiânicos acabarem aportando um lugar de profunda decepção e desapontamento. Isso aconteceu em vários momentos da história utópica do ser humano, onde as pessoas sonham em trazer um tempo que só pode ser construído com todo um processo e onde você quer fazer a coisa mais difícil que é blindar o ser humano de suas próprias fraquezas”.